Espermograma: como se preparar e como entender o resultado
Guia do espermograma: abstinência antes da coleta, cuidados no dia, o que significa cada item do laudo e por que um único resultado não define a fertilidade.
Em resumo
- O espermograma analisa volume, quantidade, movimento e forma dos espermatozoides, além de sinais de inflamação no sêmen.
- O resultado varia muito de uma coleta para outra; por isso, um exame alterado costuma ser repetido antes de qualquer conclusão.
- Os valores de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) não separam homens férteis de inférteis: o laudo precisa ser interpretado junto com a consulta e o exame físico.
- Respeitar o período de abstinência orientado e entregar todo o material coletado ajuda a tornar o exame mais confiável.
O pedido de espermograma costuma gerar dúvidas antes mesmo da coleta: quantos dias ficar sem ejacular, onde colher, se é preciso jejum. Depois, chega o laudo cheio de siglas, porcentagens e palavras longas terminadas em “zoospermia”. Este guia explica o caminho completo, do preparo à leitura do resultado, para que a conversa com o urologista seja mais produtiva.
Para que serve o espermograma
O espermograma é a análise do sêmen em laboratório. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), é o principal exame na avaliação do homem quando o casal tem dificuldade para engravidar e, na maioria das vezes, o primeiro a ser solicitado. Ele avalia o volume do sêmen, o número e a concentração de espermatozoides, a motilidade (como eles se movimentam), a morfologia (a forma) e a presença de leucócitos, que podem indicar inflamação.
O exame também é usado em outras situações, como no controle após a vasectomia, quando o objetivo é outro: confirmar a ausência de espermatozoides. Esse uso específico está explicado no artigo sobre vasectomia. Aqui, o foco é o espermograma pedido na investigação da fertilidade.
Antes da coleta: o que muda o resultado
Período de abstinência
A SBU orienta um período de abstinência de 2 a 3 dias antes da coleta, ou seja, sem relação sexual com ejaculação e sem masturbação. Alguns laboratórios trabalham com intervalos um pouco diferentes; siga a orientação recebida. O ponto mais importante é a regularidade: segundo a SBU, mudar o tempo de abstinência de um exame para outro pode invalidar a comparação entre eles.
Febre e doenças recentes
A SBU lembra que doenças com febre e infecções podem causar uma alteração temporária na função dos testículos. Se você teve febre, gripe forte ou outra infecção nas semanas anteriores, avise o médico e o laboratório. Às vezes vale combinar uma nova data para não colher em um momento que não representa o seu padrão habitual.
Medicamentos e hábitos
Leve a lista de medicamentos e suplementos em uso, incluindo hormônios e anabolizantes, que interferem na produção de espermatozoides. Tabagismo, álcool e outras drogas também entram na conversa, como detalhado no artigo sobre cigarro, álcool e fertilidade.
No dia do exame: como é a coleta
De acordo com a SBU, a coleta é feita por masturbação, no laboratório ou na clínica de reprodução, em um frasco próprio de boca larga. Algumas orientações práticas:
- faça a higiene das mãos e da região genital conforme a instrução do laboratório;
- colha todo o ejaculado no frasco. A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) destaca que o número total de espermatozoides tem mais valor diagnóstico do que a concentração isolada, e por isso o volume precisa ser medido com precisão;
- se alguma parte for perdida, informe a equipe. Isso não é motivo de constrangimento e ajuda a interpretar o laudo corretamente.
Como ler o laudo
A metodologia e os valores de referência seguem o manual da Organização Mundial da Saúde (OMS), cuja 6ª edição foi publicada em 2021. A EAU apresenta os limites inferiores de referência dessa edição, ou seja, os valores mínimos considerados dentro da referência:
- Volume do sêmen: 1,4 mL
- Número total de espermatozoides: 39 milhões por ejaculado
- Concentração: 16 milhões por mL
- Motilidade total: 42%
- Motilidade progressiva: 30%
- Vitalidade (espermatozoides vivos): 54%
- Formas normais (morfologia): 4%
Outros itens do laudo têm valores de consenso, como pH acima de 7,2 e leucócitos abaixo de 1 milhão por mL. Laudos mais antigos ou de outros laboratórios podem usar os valores da edição anterior do manual, um pouco diferentes; por isso, compare sempre com a referência impressa no próprio laudo.
O que significam os termos mais comuns
- Oligozoospermia: quantidade de espermatozoides abaixo da referência.
- Astenozoospermia: movimento progressivo abaixo da referência.
- Teratozoospermia: proporção de formas normais abaixo da referência.
- Azoospermia: ausência de espermatozoides no ejaculado. Antes de confirmar, a EAU recomenda centrifugar a amostra e examinar o sedimento, porque poucos espermatozoides podem passar despercebidos.
- Leucocitospermia: excesso de leucócitos. Segundo a EAU, é um sinal de inflamação, mas não significa necessariamente infecção, e o tratamento só desse achado, sem um microrganismo identificado, não mostrou aumentar a chance de gravidez.
É comum que mais de uma alteração apareça ao mesmo tempo. Nenhum desses termos, isoladamente, é um diagnóstico de infertilidade.
O que um resultado alterado quer dizer
Os valores de referência foram obtidos de cerca de 3.500 homens, em 12 países, cujas parceiras engravidaram em até 12 meses. O limite usado corresponde aos 5% com os menores valores desse grupo. A EAU ressalta que esse limite não é uma linha divisória entre férteis e inférteis, e a SBU acrescenta que homens com valores abaixo da referência podem conseguir engravidar a parceira, enquanto outros com valores normais podem ter dificuldade. Por isso, a SBU afirma que o espermograma não deve ser visto como um “teste de fertilidade”.
Por que repetir o exame
O espermograma varia bastante de uma amostra para outra no mesmo homem. A SBU aconselha duas análises antes de uma opinião sobre o caso, com intervalo de 15 a 30 dias entre elas. A EAU segue a mesma linha: se o primeiro exame é normal, um basta; se vier alterado, devem ser feitas pelo menos duas análises, e alterações confirmadas indicam uma avaliação andrológica mais completa.
Depois do resultado: os próximos passos
O laudo é uma parte da avaliação, não o seu final. Na consulta, o urologista revisa a história reprodutiva e de saúde, faz o exame físico dos testículos, dos epidídimos e dos ductos deferentes e procura sinais como a varicocele. Conforme o caso, podem ser solicitados:
- dosagens hormonais, como testosterona total, FSH, LH e prolactina;
- ultrassom da bolsa escrotal com Doppler;
- exames genéticos, que a EAU indica quando há azoospermia ou concentração muito baixa;
- teste de fragmentação do DNA espermático, recomendado pela EAU para casais com perdas gestacionais de repetição, falhas em reprodução assistida ou infertilidade sem causa aparente.
Volume muito baixo, ausência de ejaculação ou sangue no sêmen pedem investigação própria, explicada nos artigos sobre ejaculação retrógrada e anejaculação e hemospermia. Para uma visão geral das causas e da varicocele, veja também infertilidade masculina e varicocele.
A avaliação é do casal
A fertilidade é uma questão do casal. A EAU recomenda investigar os dois parceiros ao mesmo tempo e considerar a idade e a reserva ovariana da mulher nas decisões sobre o homem. Levar o espermograma à consulta, junto com exames anteriores e a lista de medicamentos, ajuda a organizar esse planejamento. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, o atendimento é particular e a conversa sobre o resultado é feita com calma, caso a caso.
Quando procurar o urologista
- O casal tenta engravidar há 12 meses sem sucesso; se a mulher tem mais de 35 anos, vale conversar sobre uma avaliação mais cedo.
- Você recebeu um espermograma com termos como oligozoospermia, astenozoospermia, teratozoospermia ou azoospermia.
- Há volume de sêmen muito baixo, ausência de ejaculação, dor ou sangue no esperma.
- Você vai iniciar quimioterapia, radioterapia ou outra cirurgia que possa afetar a fertilidade e quer saber sobre congelamento de sêmen.
Referências
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.