Azoospermia: o que fazer quando o espermograma vem sem espermatozoides
Azoospermia é a ausência de espermatozoides no sêmen. Entenda os dois tipos, os exames que investigam a causa e por que o diagnóstico não encerra a busca.
Em resumo
- Azoospermia é a ausência total de espermatozoides no sêmen e precisa ser confirmada em pelo menos dois exames, com centrifugação da amostra.
- Existem dois grandes grupos: a obstrutiva, em que há produção mas o caminho está bloqueado, e a não obstrutiva, em que a produção no testículo está muito reduzida.
- A investigação inclui história clínica, exame físico, dosagens hormonais e, conforme o caso, ultrassom e testes genéticos.
- Em muitos homens é possível encontrar espermatozoides diretamente no testículo ou no epidídimo para uso em reprodução assistida, mas isso depende da causa.
Abrir o resultado do espermograma e ler “ausência de espermatozoides” costuma ser um choque. Muitos homens interpretam a frase como um ponto final para o desejo de ter filhos. Na prática, a azoospermia é o começo de uma investigação: descobrir por que os espermatozoides não aparecem no sêmen é o que orienta os próximos passos.
O que significa azoospermia
Azoospermia é a ausência completa de espermatozoides no sêmen. Ela é diferente da oligozoospermia, em que há espermatozoides, porém em número reduzido, e da criptozoospermia, em que eles são tão raros que só aparecem depois de uma análise mais minuciosa.
A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) mostra que a azoospermia não é rara entre os homens que procuram avaliação de fertilidade: em uma grande série de pacientes atendidos por infertilidade, cerca de 11% tinham esse diagnóstico. Também por isso, a EAU recomenda que todo homem de um casal com dificuldade para engravidar passe por avaliação médica, mesmo quando a parceira já está em investigação.
Como o diagnóstico é confirmado
Um único laudo não basta. A EAU recomenda repetir o espermograma quando o primeiro vem alterado, com pelo menos dois exames. No caso da azoospermia há um cuidado adicional: o laboratório deve centrifugar a amostra e examinar o sedimento ao microscópio. Esse passo, descrito também no manual de análise de sêmen da Organização Mundial da Saúde (OMS), serve para diferenciar a azoospermia verdadeira da criptozoospermia. A diferença importa: se houver alguns espermatozoides no sêmen, eles podem ser usados em técnicas de reprodução assistida, às vezes sem necessidade de cirurgia.
Antes do exame, vale seguir com cuidado as orientações de coleta. O passo a passo está no artigo sobre espermograma: preparo e resultado.
Os dois tipos: obstrutiva e não obstrutiva
Depois de confirmada, a azoospermia é classificada em um de dois grupos. Essa separação é o centro da investigação, porque muda completamente o raciocínio.
Azoospermia obstrutiva
Aqui o testículo produz espermatozoides, mas eles não conseguem sair, porque algum ponto do caminho (epidídimo, canal deferente ou ductos ejaculatórios) está bloqueado ou ausente. Entre as causas citadas pela EAU estão:
- vasectomia prévia, que é uma obstrução feita de propósito (veja o artigo sobre reversão de vasectomia);
- ausência congênita dos canais deferentes, frequentemente ligada a alterações no gene da fibrose cística (CFTR), mesmo em homens sem sintomas da doença;
- cicatrizes após infecções, como epididimite, ou após cirurgias na virilha e na bolsa escrotal;
- obstrução dos ductos ejaculatórios, que pode se manifestar com volume de sêmen muito baixo.
Azoospermia não obstrutiva
Neste grupo o problema está na produção dentro do testículo. Na tabela de causas da EAU, entre os homens com azoospermia aparecem com destaque o testículo que não desceu (criptorquidia), a síndrome de Klinefelter (uma alteração cromossômica, 47,XXY), outras formas de hipogonadismo, a varicocele e os efeitos de tratamentos contra o câncer, como quimioterapia e radioterapia. Microdeleções do cromossomo Y, pequenas perdas de material genético nesse cromossomo, são segundo a mesma diretriz a causa genética molecular mais frequente das formas graves.
O uso de testosterona ou anabolizantes também pode suprimir a produção de espermatozoides, tema explicado no artigo sobre anabolizantes, testículos e fertilidade. Em muitos casos, porém, nenhuma causa isolada é identificada.
Quais exames ajudam a encontrar a causa
A investigação recomendada pelas diretrizes europeia (EAU) e americana (AUA/ASRM) costuma combinar:
- História clínica: doenças na infância, cirurgias, infecções, febre recente, medicamentos, exposição a calor ou tóxicos, tabagismo e histórico familiar.
- Exame físico: tamanho e consistência dos testículos, presença dos canais deferentes, aspecto do epidídimo e pesquisa de varicocele. A EAU orienta examinar com atenção todo homem com azoospermia para não deixar passar a ausência dos deferentes.
- Dosagens hormonais: FSH, LH e testosterona total. Um FSH elevado com testículos menores sugere falha de produção; hormônios normais com testículos de tamanho normal falam mais a favor de obstrução, embora não haja regra absoluta.
- Testes genéticos: a EAU recomenda cariótipo e aconselhamento genético para todo homem com azoospermia, além da pesquisa de microdeleções do cromossomo Y. Na suspeita de ausência dos deferentes, entra a pesquisa do gene CFTR, também na parceira.
- Ultrassom: o da bolsa escrotal avalia os testículos e sinais de obstrução; o transretal é indicado quando se suspeita de bloqueio nos ductos ejaculatórios.
Quais são os caminhos possíveis
O plano depende do tipo de azoospermia, da causa encontrada e também da idade e da reserva ovariana da parceira, que a EAU recomenda avaliar em paralelo.
Na forma obstrutiva, as opções incluem a correção cirúrgica do bloqueio, quando viável (como na reversão da vasectomia), ou a retirada de espermatozoides diretamente do epidídimo ou do testículo para uso em fertilização in vitro com injeção intracitoplasmática (ICSI).
Na forma não obstrutiva, o objetivo é tratar o que for tratável, como uma varicocele clínica ou um hipogonadismo de causa hormonal específica, e discutir a busca de espermatozoides no testículo. A técnica de microdissecção testicular (micro-TESE) procura pequenas áreas onde ainda existe produção. As chances variam muito com a causa: a EAU relata, por exemplo, que espermatozoides podem ser encontrados em até metade dos homens com síndrome de Klinefelter e em 50% a 75% dos que têm microdeleção na região AZFc, enquanto nas deleções completas das regiões AZFa e AZFb a diretriz recomenda não realizar a cirurgia, porque as chances são muito baixas. Esses números são médias de estudos e não preveem o resultado de uma pessoa.
Quando não é possível obter espermatozoides, o casal pode conversar com a equipe de reprodução humana sobre outras alternativas. Para homens que vão iniciar tratamentos que afetam a fertilidade, o congelamento de sêmen deve ser discutido antes.
Perguntas frequentes
Azoospermia significa que nunca vou ter filhos biológicos?
Não necessariamente. Depende da causa. Em muitos casos obstrutivos e em parte dos não obstrutivos é possível obter espermatozoides para reprodução assistida. A avaliação individual é que define as possibilidades.
Tomar testosterona ajuda a produzir espermatozoides?
Não. A testosterona usada como medicamento tende a reduzir a produção de espermatozoides. Pela Resolução CFM 2.333/2023, a reposição hormonal só é indicada em deficiência comprovada, e quem deseja ter filhos precisa discutir isso antes com o urologista.
Se a causa for genética, o filho pode herdar?
Algumas alterações podem ser transmitidas. A EAU orienta, por exemplo, que filhos homens de pais com microdeleção do cromossomo Y herdarão a deleção. Por isso o aconselhamento genético faz parte do processo.
A investigação de azoospermia é feita com calma, em etapas, e envolve o casal. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a avaliação segue as diretrizes citadas abaixo e é individualizada para cada caso.
Quando procurar o urologista
- Você recebeu um espermograma com a palavra azoospermia ou com ausência de espermatozoides.
- O casal tenta engravidar há 12 meses sem sucesso; se a mulher tem mais de 35 anos, vale conversar sobre uma avaliação mais cedo.
- Você tem histórico de testículo que não desceu, caxumba com inflamação no testículo, quimioterapia, radioterapia ou uso de anabolizantes.
- O volume de sêmen é muito pequeno, ou você notou um nódulo ou mudança de tamanho em um testículo.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility
- American Urological Association / American Society for Reproductive Medicine (AUA/ASRM). Diagnosis and Treatment of Infertility in Men
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Infertilidade masculina – Portal da Urologia
- Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6th ed. (2021)
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.