Saúde sexual e fertilidade

Anabolizantes: o que acontece com testículos, fertilidade e ereção

Entenda por que anabolizantes podem diminuir os testículos, reduzir os espermatozoides e afetar a ereção, o que pode acontecer depois de parar e como é a avaliação.

Halteres coloridos empilhados em um suporte de academia (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa: Ser Amantio di Nicolao / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em resumo

  • Anabolizantes são derivados da testosterona; quando vêm de fora, o cérebro deixa de estimular os testículos, que reduzem a produção de hormônio e de espermatozoides.
  • Entre os efeitos urológicos descritos pela SBU estão infertilidade, disfunção erétil, aumento das mamas e diminuição dos testículos.
  • Depois da interrupção, esses efeitos costumam ser transitórios, geralmente de 6 a 18 meses, mas podem demorar anos e há relatos de efeito permanente.
  • O uso com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo é vedado pela Resolução CFM nº 2.333/2023.

Muita gente associa anabolizantes a músculos maiores e mais força. O que costuma ficar de fora da conversa é o efeito sobre o sistema reprodutor: testículos que diminuem, queda na produção de espermatozoides e, em parte dos casos, dificuldade de ereção e de desejo sexual. Este texto explica, com base na Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), no Ministério da Saúde e no Conselho Federal de Medicina (CFM), por que isso acontece e como é a avaliação de quem usou ou ainda usa essas substâncias.

O que são os anabolizantes

Os esteroides androgênicos anabólicos, conhecidos como anabolizantes, são compostos geralmente derivados da testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Segundo a SBU, eles podem ser usados por injeção intramuscular, por via oral ou em gel aplicado na pele, e passaram a ser procurados por homens e também por mulheres para musculação, rendimento esportivo e fins estéticos.

Como medicamento, a testosterona tem lugar definido: tratar a deficiência hormonal comprovada, com sintomas compatíveis e exames que confirmem níveis baixos. Esse uso, com seus critérios e cuidados, está explicado no artigo sobre quando a reposição de testosterona é indicada. Fora dessa situação, a SBU lembra que existem mais riscos que benefícios.

Por que o testículo “desliga”

Para produzir testosterona e espermatozoides, os testículos dependem de uma ordem que vem da hipófise, uma glândula localizada no cérebro. A hipófise libera dois hormônios, o LH e o FSH, que estimulam os testículos a trabalhar. A própria testosterona, por sua vez, sinaliza de volta para a hipófise quando já há hormônio suficiente no sangue.

Quando a testosterona chega de fora, em doses que costumam ultrapassar o normal, a hipófise entende que não precisa mais enviar o estímulo. A SBU chama esse processo de bloqueio hipofisário. Sem o comando, os testículos reduzem a produção do próprio hormônio e dos espermatozoides. É por isso que a SBU orienta que a testosterona não seja usada como tratamento para infertilidade: em vez de ajudar, ela pode comprometer a fertilidade.

Efeitos no sistema reprodutor masculino

A SBU descreve como principais riscos urológicos do uso inadequado de anabolizantes:

  • infertilidade, pela queda na produção de espermatozoides;
  • disfunção erétil e diminuição do desejo sexual;
  • diminuição do tamanho dos testículos;
  • aumento das mamas (ginecomastia).

O Ministério da Saúde acrescenta, entre os efeitos do consumo indevido em homens, a redução na quantidade de esperma, a calvície e o crescimento das mamas, que pode ser irreversível. A Resolução CFM nº 2.333/2023 também inclui infertilidade, disfunção erétil e diminuição da libido entre os distúrbios endócrinos associados ao uso, e destaca que efeitos prejudiciais podem ocorrer mesmo em doses terapêuticas, influenciados pela substância, dose, via de uso e histórico familiar.

Na avaliação da infertilidade, as diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU) incluem o uso de esteroides anabolizantes entre os pontos da história clínica que o médico deve investigar. Se o casal está tentando engravidar, o artigo sobre espermograma explica como é o principal exame dessa investigação.

Efeitos além da urologia

O impacto não se restringe aos órgãos genitais. As fontes oficiais citam:

  • coração e circulação: aumento da pressão arterial, arritmias, crescimento do músculo cardíaco e risco de infarto e acidente vascular cerebral;
  • fígado: hepatite medicamentosa, insuficiência hepática e tumores;
  • sangue: alterações da coagulação e do colesterol;
  • comportamento: alterações de humor, agressividade, depressão e dependência;
  • pele: acne intensa;
  • infecções: risco de HIV e hepatites quando agulhas são compartilhadas.

Em mulheres, o Ministério da Saúde descreve engrossamento da voz, crescimento de pelos no rosto e no corpo, redução dos seios e irregularidade ou interrupção da menstruação. Em adolescentes, o uso precoce pode interromper o crescimento e levar à baixa estatura. Por isso, o tema também diz respeito a pais e responsáveis de jovens que frequentam academias.

E depois de parar?

Uma dúvida frequente é se tudo volta ao normal após a interrupção. A SBU explica que, mesmo depois de suspender o anabolizante, os testículos podem continuar sem trabalhar por um período, porque a hipófise demora a retomar o estímulo. Com o passar dos meses, o processo pode se reverter de forma espontânea ou com a ajuda de medicamentos prescritos pelo médico.

Segundo a SBU, os efeitos geralmente são transitórios, em torno de 6 a 18 meses, mas podem levar anos e há relatos de efeito permanente. Não é possível prever, antes da avaliação, como será em cada pessoa, e por isso o acompanhamento faz diferença.

Alguns cuidados ajudam nessa fase:

  • não interromper nem trocar substâncias por conta própria, seguindo “protocolos” de internet ou de academia;
  • não usar outros hormônios ou medicamentos para “religar” os testículos sem prescrição;
  • relatar ao médico tudo o que foi usado, por quanto tempo e em que doses, mesmo que pareça constrangedor.

Como é a avaliação com o urologista

A consulta começa por uma conversa sem julgamentos. A SBU recomenda que pessoas em uso de anabolizantes procurem aconselhamento médico para o manejo de cada caso, e a informação é tratada com sigilo. O médico costuma perguntar sobre:

  • quais substâncias foram usadas, a via (injeção, comprimido, gel), o tempo de uso e quando parou;
  • sintomas atuais, como desejo sexual, ereção, cansaço, humor e alterações nas mamas;
  • planos de ter filhos e há quanto tempo o casal tenta engravidar;
  • outras doenças, medicamentos, tabagismo e álcool.

O exame físico avalia os testículos, as mamas e outros sinais. Conforme o caso, podem ser pedidos exames de sangue para os hormônios, espermograma e outros testes. Quando há dificuldade de ereção, também vale olhar para a saúde do coração, como mostra o artigo sobre disfunção erétil e saúde cardiovascular.

O que diz a regra do CFM

A Resolução CFM nº 2.333/2023 estabelece que a reposição hormonal está indicada em caso de deficiência específica comprovada. A mesma norma veda ao médico prescrever esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora do desempenho esportivo, seja para atletas amadores ou profissionais, além de vedar a prescrição de SARMs (moduladores seletivos do receptor androgênico), que têm comercialização suspensa no Brasil. O Ministério da Saúde lembra que os anabolizantes são medicamentos de controle especial, vendidos apenas com retenção de receita.

Em resumo

Anabolizantes interferem diretamente no comando hormonal dos testículos e podem afetar fertilidade, ereção e desejo sexual, além de outros órgãos. Se você usou ou usa essas substâncias, buscar avaliação é o caminho mais seguro, seja para entender os sintomas, seja para planejar uma gravidez. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a conversa é feita com sigilo e respeito à história de cada pessoa.

Quando procurar o urologista

  • Você usa ou já usou anabolizantes ou testosterona sem acompanhamento e percebeu queda do desejo, dificuldade de ereção ou testículos menores.
  • O casal tenta engravidar e há histórico de uso de hormônios, mesmo que tenha sido há meses ou anos.
  • Você parou o uso e sente cansaço, desânimo ou falta de libido que não melhoram.
  • Surgiu aumento ou dor nas mamas, ou um nódulo na região mamária.
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Referências

  1. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Riscos urológicos do uso de anabolizantes – Portal da Urologia
  2. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). O que é testosterona? – Portal da Urologia
  3. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde – Anabolizantes
  4. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023
  5. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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