Congelamento de sêmen: quando considerar e como funciona a coleta
Saiba quando o congelamento de sêmen é indicado, como antes de quimioterapia ou radioterapia, como é feita a coleta e o que esperar do uso futuro das amostras.
Em resumo
- O congelamento de sêmen (criopreservação) guarda espermatozoides em nitrogênio líquido para uso futuro em técnicas de reprodução assistida.
- A principal indicação é antes de quimioterapia, radioterapia ou cirurgias que possam prejudicar a produção de espermatozoides ou a ejaculação.
- O ideal é coletar antes de começar o tratamento; a SBU sugere, quando possível, pelo menos três amostras, conforme a orientação médica.
- As amostras podem ficar guardadas por tempo indeterminado, mas o congelamento preserva uma possibilidade, não garante uma gravidez.
Quando um homem recebe a notícia de que vai precisar de quimioterapia, radioterapia ou de uma cirurgia mais extensa, o foco natural é tratar a doença. Mesmo assim, existe um assunto que vale ser conversado logo no começo, porque depois pode ser tarde: o futuro reprodutivo. O congelamento de sêmen é uma das formas de preservar a possibilidade de ter filhos mais adiante.
O que é o congelamento de sêmen
O congelamento de sêmen, também chamado de criopreservação seminal, consiste em guardar amostras de sêmen em temperatura muito baixa para que os espermatozoides possam ser usados no futuro. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), é a maneira mais eficaz de preservar os gametas masculinos.
No laboratório, uma pequena parte da amostra é analisada e o restante recebe um líquido protetor. Em seguida, a amostra é resfriada aos poucos e armazenada em nitrogênio líquido, a cerca de 196 graus negativos. Cada frasco é identificado com cuidado para garantir a rastreabilidade.
Nem todos os espermatozoides resistem ao processo: a SBU informa que algo entre 25% e 50% deles não sobrevive ao congelamento e ao descongelamento. É por isso que a quantidade e a qualidade das amostras guardadas fazem diferença.
Quando ele costuma ser indicado
Antes do tratamento de um câncer
Essa é a situação mais importante. Quimioterapia e radioterapia podem reduzir ou interromper a produção de espermatozoides, às vezes por muito tempo. Algumas cirurgias, como as do retroperitônio (região no fundo do abdome), podem afetar a ejaculação.
A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) recomenda que todo homem com câncer receba a oferta de congelar o sêmen antes de tratamentos que possam prejudicar a fertilidade. No caso do câncer de testículo, a mesma entidade orienta conversar sobre o banco de sêmen com todos os pacientes antes de começar o tratamento.
Há um detalhe pouco conhecido: homens com câncer de testículo muitas vezes já apresentam alterações no espermograma antes de qualquer tratamento. Por isso, a EAU recomenda fazer a análise e o congelamento, sempre que possível, antes da retirada do testículo. Se o exame mostrar ausência ou quantidade muito baixa de espermatozoides, a equipe pode discutir a extração de espermatozoides diretamente do testículo no mesmo ato cirúrgico. Ao mesmo tempo, a diretriz é clara ao dizer que a cirurgia não deve ser atrasada de forma indevida se não houver como congelar a tempo. Se esse é o seu caso, vale ler também sobre o autoexame e o câncer de testículo.
Outras situações
A SBU também lista outros motivos que podem levar um homem a considerar o congelamento, sempre após avaliação individual:
- cirurgias no aparelho reprodutor que possam comprometer a produção de espermatozoides;
- exposição no trabalho a calor intenso, metais pesados, solventes ou radiação;
- algumas cirurgias de obesidade que alteram o trajeto intestinal;
- guarda de espermatozoides obtidos por punção ou biópsia do testículo ou do epidídimo.
E a vasectomia? Para a SBU, congelar o sêmen antes da vasectomia não é rotina: quem faz a vasectomia deve estar seguro de que não deseja mais filhos. Se existe dúvida, a orientação é preferir outro método contraceptivo. O congelamento é possível e pode ser conversado, mas como exceção.
Como é feita a coleta
Na maioria das vezes, a coleta é feita por masturbação, em um recipiente estéril, em um laboratório ou clínica de reprodução. O preparo é parecido com o do espermograma, com um período de abstinência sexual definido pela equipe (veja o preparo e a coleta do espermograma).
Para aumentar as chances de uso futuro, a SBU recomenda congelar, quando possível, pelo menos três ejaculados, com intervalos definidos pelo médico. Esse número pode ser maior ou menor conforme a qualidade do sêmen. Quando o tratamento do câncer é urgente, a equipe define quantas coletas cabem no tempo disponível, sem atrasar o tratamento.
Se não houver espermatozoides no ejaculado, ou se o homem não conseguir ejacular, existem técnicas para retirar espermatozoides diretamente do testículo ou do epidídimo, que também podem ser congeladas.
Durante a quimioterapia ou a radioterapia, e por pelo menos seis meses depois, a EAU orienta o uso de método contraceptivo, porque esses tratamentos podem causar alterações no material genético dos espermatozoides.
E os adolescentes e as crianças?
Meninos que já entraram na puberdade podem conseguir fazer a coleta, e o assunto deve ser tratado com cuidado, junto da família e da equipe que cuida do tratamento. Em meninos antes da puberdade, ainda não há sêmen para congelar. O congelamento de tecido do testículo nessa fase é considerado experimental pela EAU e só deve ser feito dentro de pesquisas.
Para mulheres que vão passar por tratamentos semelhantes, também existem formas de preservar a fertilidade, como o congelamento de óvulos, que devem ser conversadas com a equipe de reprodução.
Quanto tempo o sêmen pode ficar guardado
De acordo com a SBU, as amostras podem permanecer armazenadas por tempo indeterminado e são descongeladas quando o paciente decide usá-las. A SBU informa ainda que o uso de sêmen congelado não aumenta as complicações na gravidez ou no parto e não acrescenta risco genético.
Como as amostras são usadas depois
O sêmen congelado é usado em técnicas de reprodução assistida. Conforme a qualidade e a quantidade de amostras disponíveis, o médico pode indicar:
- inseminação intrauterina, em que os espermatozoides são colocados dentro do útero no período fértil;
- fertilização in vitro (FIV), em que a fecundação acontece em laboratório;
- ICSI, uma forma de fertilização in vitro em que um espermatozoide é injetado diretamente no óvulo.
As chances de gravidez variam com a técnica, com a qualidade da amostra após o descongelamento e com fatores da parceira, como a idade. O congelamento preserva uma possibilidade, mas não garante a gestação.
Perguntas para levar à consulta
Se você vai começar um tratamento que pode afetar a fertilidade, algumas perguntas ajudam a organizar a conversa com a equipe:
- Este tratamento pode afetar a produção de espermatozoides ou a ejaculação?
- Há tempo para coletar antes de começar? Quantas amostras seriam recomendadas no meu caso?
- O que fazer se o espermograma mostrar poucos ou nenhum espermatozoide?
- Por quanto tempo devo evitar uma gravidez depois do tratamento?
No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, essa conversa faz parte da avaliação de homens que vão passar por tratamentos com impacto na fertilidade, sempre em conjunto com a equipe responsável pelo tratamento principal.
Quando procurar o urologista
- Você recebeu um diagnóstico de câncer e ainda não conversou sobre fertilidade antes de iniciar o tratamento.
- Há uma cirurgia programada no testículo, na próstata ou no abdome que possa afetar a produção de espermatozoides ou a ejaculação.
- Você notou um nódulo ou aumento no testículo: procure avaliação logo, e não apenas por causa da fertilidade.
- Seu filho adolescente vai iniciar um tratamento oncológico e a família quer entender as opções.
Referências
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Congelamento de óvulos e sêmen – Portal da Urologia
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Como tratar a infertilidade pós-vasectomia? – Portal da Urologia
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Testicular Cancer – Diagnostic Evaluation
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.