Vida sexual após o tratamento do câncer de próstata: o que esperar
Cirurgia, radioterapia e hormonioterapia podem mudar ereção, ejaculação e desejo. Veja o que é esperado, as opções de tratamento e como falar disso.
Em resumo
- Alterações na ereção, na ejaculação e no desejo são efeitos conhecidos da cirurgia, da radioterapia e da hormonioterapia para o câncer de próstata.
- Após a retirada da próstata, o orgasmo pode acontecer sem saída de sêmen (orgasmo seco); a ereção pode voltar aos poucos ou precisar de ajuda.
- Existem várias opções para a disfunção erétil depois do tratamento, de comprimidos a dispositivos e prótese, escolhidas caso a caso.
- Conversar sobre sexualidade antes e depois do tratamento, incluindo a parceria, faz parte do cuidado e não deve ser motivo de vergonha.
Quando recebe o diagnóstico de câncer de próstata, o homem costuma concentrar toda a atenção no controle da doença. Só depois, às vezes semanas após a cirurgia ou no meio da radioterapia, surgem as perguntas que ficaram guardadas: a ereção vai voltar? Por que não sai mais sêmen? O desejo vai ser o mesmo? Essas dúvidas são comuns, têm explicação e merecem espaço na consulta.
Por que o tratamento mexe com a sexualidade
A próstata fica logo abaixo da bexiga, rodeada por nervos e vasos finos que participam da ereção. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença localizada pode ser tratada com cirurgia, radioterapia ou, em situações selecionadas, apenas com acompanhamento; em fases mais avançadas, entra o tratamento hormonal. Cada um desses caminhos afeta a vida sexual de um jeito.
A diretriz de saúde sexual da Associação Europeia de Urologia (EAU) explica que, na prostatectomia radical (retirada da próstata), a lesão dos feixes de nervos e vasos ao lado da glândula pode levar à disfunção erétil, mesmo com as técnicas que procuram preservar esses nervos. A radioterapia e a braquiterapia também podem causar o problema, que costuma aparecer de forma mais gradual. Já a hormonioterapia (bloqueio da testosterona) reduz tanto o desejo quanto a capacidade de ter e manter a ereção.
O que muda depois de cada tratamento
Após a cirurgia
A EAU cita estudos em que de 25% a 75% dos homens apresentam disfunção erétil depois da prostatectomia, e em que a recuperação da ereção sem nenhuma ajuda fica entre 20% e 25% na maioria das séries. Os fatores que mais pesam são a idade, a qualidade da ereção antes da cirurgia, a possibilidade de preservar os nervos e a experiência da equipe cirúrgica. A comparação entre cirurgia aberta e robótica ainda é debatida, sem diferença clara comprovada.
Outras mudanças descritas pela diretriz de câncer de próstata da EAU:
- orgasmo seco: como a próstata e as vesículas seminais são retiradas, o orgasmo continua possível, mas sem saída de sêmen;
- alteração na sensação do orgasmo e, às vezes, dor nesse momento;
- queixa de diminuição do comprimento do pênis em uma parcela pequena dos homens;
- perda de urina, que é a segunda complicação mais frequente a longo prazo e pode interferir na intimidade.
Como não há mais ejaculação, quem ainda deseja ter filhos deve levar esse assunto ao urologista antes do tratamento.
Após a radioterapia
Uma revisão citada pela EAU encontrou disfunção erétil em 34% dos homens um ano após a radioterapia ou braquiterapia e em 57% após cerca de cinco anos e meio. Ou seja, o efeito pode surgir ou se acentuar com o tempo, o que reforça a importância do acompanhamento prolongado.
Durante a hormonioterapia
Segundo a EAU, a interrupção da atividade sexual é muito comum entre homens em bloqueio hormonal, chegando a até 93% em alguns estudos. Além da ereção, o tratamento costuma reduzir o desejo e pode afetar humor e relacionamento. Esses efeitos fazem parte da conversa sobre a duração e o tipo de tratamento.
Para efeito de comparação, o estudo ProtecT, também citado pela EAU, mostrou que a ereção firme o suficiente para a relação diminui com o passar dos anos até nos homens apenas acompanhados, sem tratamento ativo. A idade e outras condições de saúde também contam.
Reabilitação da ereção: o que a ciência diz
“Reabilitação peniana” é o nome dado ao uso precoce de medicamentos ou dispositivos após o tratamento, com a ideia de proteger o tecido do pênis enquanto os nervos se recuperam. A EAU considera que os estudos têm resultados discordantes e que não há recomendação definitiva, embora exista uma tendência a favor do uso precoce de medicamentos da classe dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 depois da cirurgia.
A diretriz da Associação Americana de Urologia (AUA) vai na mesma linha: o homem deve ser informado de que o uso precoce desses comprimidos pode não melhorar a recuperação espontânea da ereção, ou seja, aquela que acontece sem remédio. Isso não significa que eles sejam inúteis, e sim que a decisão deve ser individual e com expectativas realistas.
Opções de tratamento para a disfunção erétil
Quando a ereção não volta como antes, a EAU descreve diferentes alternativas, que podem ser usadas isoladamente ou combinadas:
- Comprimidos (inibidores da fosfodiesterase tipo 5), de uso antes da relação ou diário, conforme a orientação médica.
- Dispositivo de vácuo, um cilindro que atrai sangue para o pênis, seguido de um anel na base.
- Medicamento aplicado na uretra ou injeção no corpo do pênis, que agem diretamente nos vasos do pênis.
- Prótese peniana, cirurgia considerada quando as outras opções não funcionam, não são adequadas ou quando o homem prefere uma solução definitiva.
A escolha depende do tipo de tratamento feito, do tempo decorrido, de outras doenças (como diabetes e problemas cardiovasculares), dos medicamentos em uso e da preferência do casal. Nenhuma dessas opções deve ser usada por conta própria: algumas têm contraindicações importantes, inclusive para quem usa remédios para o coração.
Sexualidade é mais do que ereção
A EAU destaca que as preocupações com a vida sexual aparecem desde o diagnóstico e acompanham o homem e a parceria durante toda a sobrevivência ao câncer. A mesma diretriz registra que muitos pacientes e parceiros têm dificuldade de puxar o assunto por constrangimento. Programas de reabilitação com equipe multiprofissional, que abordam sexualidade, medo da doença, relacionamento e sintomas urinários, mostraram benefício na função sexual.
A AUA recomenda que o homem e sua parceria compreendam bem os benefícios e os riscos de cada opção, e cita estudos em que o apoio psicológico ou o aconselhamento aumentou o uso das alternativas e reduziu o abandono do tratamento. Algumas atitudes práticas ajudam:
- falar abertamente com a parceria sobre medos e expectativas;
- lembrar que carinho, toque e intimidade não dependem só da penetração;
- buscar avaliação para a perda de urina, que tem opções de tratamento, entre elas a fisioterapia do assoalho pélvico;
- manter atividade física, controlar pressão, glicemia e peso e não fumar, cuidados que favorecem a saúde dos vasos;
- não interromper o acompanhamento do PSA, que, segundo o INCA, é feito periodicamente após a cirurgia ou a radioterapia.
Leve suas dúvidas para a consulta
A vida sexual depois do câncer de próstata costuma mudar, mas raramente precisa ser deixada de lado. Entender o que é esperado para o seu tratamento, quanto tempo a recuperação pode levar e quais alternativas existem ajuda a tomar decisões com mais tranquilidade. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, esse tema faz parte da avaliação antes e depois do tratamento, sempre de forma individualizada e com espaço para a parceria participar, se o paciente desejar.
Quando procurar o urologista
- Você vai iniciar o tratamento do câncer de próstata e quer entender o impacto na vida sexual e na fertilidade.
- Meses após a cirurgia ou a radioterapia, as ereções não voltaram ou não são suficientes para a relação.
- Há dor no orgasmo, perda de urina durante a relação ou mudança no formato do pênis.
- A hormonioterapia reduziu o desejo e isso está afetando o seu bem-estar ou o relacionamento.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Prostate Cancer Guidelines – Quality of Life Outcomes in Prostate Cancer
- European Association of Urology (EAU). Sexual and Reproductive Health Guidelines – Management of Erectile Dysfunction
- American Urological Association (AUA). Erectile Dysfunction (ED) Guideline
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de próstata – versão para a população
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.