RTU de próstata: como funciona a ressecção e a recuperação
A RTU de próstata remove tecido que obstrui a uretra pela via natural. Veja quando a EAU indica o procedimento, como ele é feito e o que esperar na recuperação.
Em resumo
- A ressecção transuretral da próstata (RTU ou TURP) remove parte do tecido da zona de transição que comprime a uretra, sem corte na pele.
- A diretriz europeia (EAU) considera a RTU mono ou bipolar o padrão cirúrgico para próstatas de cerca de 30 a 80 mL com sintomas urinários moderados a intensos por obstrução.
- A versão bipolar tem eficácia parecida com a monopolar e perfil perioperatório mais favorável, com menor risco de síndrome de absorção da água de irrigação.
- Após o procedimento é comum haver sonda vesical por alguns dias, urina avermelhada e melhora progressiva do jato nas semanas seguintes.
Quando a próstata cresce de forma benigna e aperta o canal da urina, o jato fica fraco, as idas ao banheiro aumentam e, em alguns homens, aparece a retenção urinária. Se hábitos e medicamentos não bastam — ou se já houve complicações da obstrução —, o urologista pode indicar um procedimento para desobstruir a saída da bexiga. Um dos mais conhecidos é a ressecção transuretral da próstata, chamada de RTU no Brasil e de TURP (transurethral resection of the prostate) na literatura internacional.
O que é a RTU de próstata
A RTU é uma cirurgia endoscópica: o resectoscópio entra pela uretra, sobe até a próstata e remove, sob visão direta, tecido da zona de transição — a parte mais interna da glândula, que comprime o canal. Não há corte na pele.
A Associação Europeia de Urologia (EAU) descreve a TURP como operação comum no aumento benigno da próstata (BPE), para aliviar sintomas e facilitar a micção. A diretriz europeia de LUTS estima que a ressecção reduz o volume e o PSA da glândula em cerca de 25% a 58%.
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em nota de 2025, lista a RTU monopolar e bipolar entre as tecnologias disponíveis no Brasil para o tratamento cirúrgico da hiperplasia prostática benigna (HPB). A escolha deve considerar volume da próstata, doenças associadas, experiência do cirurgião, recursos e preferência da pessoa — com consentimento informado.
Quando a RTU costuma ser considerada
A EAU recomenda oferecer RTU bipolar ou monopolar para LUTS moderados a intensos em homens com próstata de aproximadamente 30 a 80 mL e obstrução prostática benigna (BPO). Para glândulas menores que cerca de 30 mL e sem lóbulo mediano, a diretriz aponta a incisão transuretral da próstata (ITU/TUIP). Próstatas muito grandes costumam ser encaminhadas a enucleação (por exemplo, HoLEP) ou a prostatectomia simples, conforme a avaliação individual.
Em termos práticos, a RTU entra em cena com mais frequência quando:
- os sintomas (jato fraco, esforço, urgência, noctúria, esvaziamento incompleto) continuam apesar do tratamento clínico — tema também no artigo sobre noctúria e próstata aumentada;
- houve retenção urinária aguda ou necessidade repetida de sonda;
- apareceram infecções de repetição, cálculo na bexiga ou prejuízo da função renal ligados à obstrução;
- o resíduo pós-miccional permanece elevado ou a urofluxometria mostra fluxo muito reduzido.
A decisão nunca é só “tamanho da próstata”: a EAU reforça que a cirurgia deve ser discutida em conjunto, com expectativas realistas sobre melhora dos sintomas, riscos e efeitos na ejaculação.
Como o procedimento é feito
O preparo inclui avaliação clínica, exames de sangue e urina, estimativa do volume prostático (em geral por ultrassom) e, quando indicado, urofluxometria ou estudo urodinâmico. Infecção urinária ativa precisa ser tratada antes da cirurgia eletiva.
Após a anestesia (raqui ou geral), o urologista introduz o resectoscópio pela uretra. Com uma alça energizada, corta e coagula o tecido obstrutivo, que é irrigado e aspirado. O canal prostático fica mais amplo e a bexiga esvazia com menos resistência.
Há duas formas principais de energia:
- monopolar: a corrente percorre o corpo até um eletrodo na pele; usa solução hipotônica de irrigação e, se houver absorção excessiva, pode ocorrer a síndrome da RTU;
- bipolar: o circuito se fecha localmente e a irrigação é com soro fisiológico, o que elimina a síndrome clássica de absorção hipotônica.
A EAU considera a RTU mono ou bipolar o padrão cirúrgico atual nesse intervalo de volume. Em metanálises da diretriz, a bipolar alcança resultados de sintomas e fluxo semelhantes aos da monopolar, com perfil perioperatório mais favorável: menos síndrome de absorção e menos necessidade de transfusão.
O que esperar depois da cirurgia
Ao término, costuma-se deixar uma sonda vesical com irrigação contínua por um período curto, para lavar a bexiga e evitar coágulos. Tempos de irrigação, cateterização e hospitalização tendem a ser menores na técnica bipolar, segundo a EAU.
Nos primeiros dias é comum urina avermelhada ou com pequenos coágulos, ardência ou urgência depois que a sonda sai, e desconforto pélvico leve. A melhora do jato e da noctúria costuma se consolidar ao longo de semanas. Beber líquidos conforme orientação, evitar esforços intensos no início e retornar nas revisões faz parte do cuidado. Sangramento intenso com coágulos, febre, calafrios, dor intensa ou nova incapacidade de urinar pedem avaliação no mesmo dia.
Resultados e riscos descritos nas diretrizes
Uma metanálise citada pela EAU, com seguimento de até cinco anos após RTU monopolar, descreveu aumento médio do fluxo máximo (Qmax) e redução do escore IPSS, da qualidade de vida e do resíduo pós-miccional. Falhas tardias, quando ocorrem, muitas vezes se relacionam mais a hipocontratilidade da bexiga do que a novo crescimento da próstata. A reoperação aparece em torno de 1% a 2% ao ano; em uma grande série austríaca, a re-TURP ficou perto de 2,4% em um ano, 6,1% em cinco anos e 8,3% em oito anos.
Mesmo com mortalidade perioperatória baixa (cerca de 0,1% em 30 dias), a morbidade permanece relevante: sangramento com transfusão (cerca de 2% a 3% em séries de monopolar), síndrome da RTU na técnica monopolar (hoje abaixo de cerca de 1,1%), retenção temporária, coágulos, infecção, e no seguimento estreitamento da uretra ou do colo vesical, incontinência (em geral transitória) e ejaculação retrógrada. Qualquer impacto sexual deve entrar no consentimento — o objetivo da RTU é tratar a obstrução urinária.
RTU e outras opções cirúrgicas
Existem hoje vaporização a laser, enucleação (HoLEP, ThuLEP, bipolar), UroLift, Rezum, embolização das artérias prostáticas e outras. A SBU reconhece as tecnologias listadas em sua nota (com registro na Anvisa) e alerta que cada uma tem indicações específicas.
Para muitos homens com próstata entre 30 e 80 mL e sintomas importantes, a RTU continua sendo a referência com a qual as novas técnicas são comparadas. Em próstatas pequenas sem lóbulo mediano, a incisão (TUIP) pode bastar; em glândulas muito volumosas, a enucleação ou a prostatectomia simples costumam ser mais adequadas. O urologista pesa anatomia, saúde geral, disponibilidade do método e as prioridades de cada pessoa.
Em resumo para a conversa na consulta
A RTU de próstata alivia a obstrução do crescimento benigno da glândula pela via natural da urina. Ela não substitui a avaliação individual nem garante o mesmo resultado para todos: volume da próstata, sintomas, riscos e alternativas devem ser discutidos com transparência. Se os sintomas persistem, já houve retenção ou você quer entender se a RTU faz sentido no seu caso, a conversa começa com o exame clínico e, quando necessário, exames de fluxo e imagem.
Quando procurar o urologista
- Você tem jato fraco, esforço para urinar, idas frequentes ao banheiro ou noctúria e os medicamentos não controlam bem os sintomas.
- Já houve retenção urinária (incapacidade de urinar), infecções de repetição, cálculo na bexiga ou prejuízo da função renal ligado à obstrução.
- O urologista conversou sobre cirurgia para hiperplasia prostática e você quer entender o que é a RTU antes de decidir.
- Depois da RTU apareceram febre, sangramento intenso com coágulos, dor forte ou nova dificuldade para urinar: procure atendimento no mesmo dia.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on the Management of Non-neurogenic Male LUTS – Disease management (seção 5.3.1, ressecção transuretral da próstata)
- European Association of Urology (EAU). Patient Information – Transurethral Resection of the Prostate (TURP) for BPE
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Nota de esclarecimento sobre tecnologias para o tratamento cirúrgico da HPB no Brasil (Portal da Urologia, 24/03/2025)
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.