Procedimentos

Litotripsia extracorpórea: como as ondas de choque quebram a pedra no rim

Entenda como funciona a litotripsia extracorpórea por ondas de choque (LECO), para quais cálculos ela costuma ser indicada, quando não é usada e o que esperar depois.

Ilustração de um rim em corte com um cálculo na saída do rim atingido por ondas concêntricas douradas, sobre fundo azul-marinho (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa

Em resumo

  • A litotripsia extracorpórea (LECO) usa ondas de choque geradas fora do corpo e focadas no cálculo para quebrá-lo em fragmentos que saem pela urina.
  • Não há corte nem aparelho introduzido pelo canal da urina; o procedimento dura cerca de uma hora e é feito com analgesia ou sedação.
  • O resultado depende do tamanho, da localização e da dureza da pedra, do biotipo da pessoa e da técnica; às vezes é preciso mais de uma sessão.
  • Gravidez, infecção urinária não controlada, distúrbios de coagulação e obstrução abaixo da pedra estão entre as situações em que ela não é indicada.

Quem descobre uma pedra no rim costuma ouvir, em algum momento, a palavra litotripsia. Ela quer dizer, literalmente, “quebrar a pedra”. Existem várias formas de fazer isso, e uma delas acontece sem nenhum corte e sem passar instrumentos pelo canal da urina: a litotripsia extracorpórea por ondas de choque, conhecida pela sigla LECO (em inglês, SWL ou ESWL).

O que acontece durante a LECO

O aparelho de litotripsia gera ondas de choque, que são ondas sonoras de alta energia, fora do corpo. Essas ondas atravessam a pele e os tecidos e são focadas exatamente no cálculo. A cada impulso, a pedra sofre pequenas rachaduras, até se fragmentar em pedaços pequenos o bastante para descer pelo ureter e sair com a urina nos dias e semanas seguintes.

Alguns detalhes fazem diferença no resultado, segundo a diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU):

  • localização por imagem: a pedra é acompanhada por raio X (fluoroscopia) e/ou ultrassom durante todo o procedimento, para que as ondas continuem atingindo o alvo;
  • contato com a pele: usa-se um gel entre a cabeça do aparelho e o corpo. Bolhas de ar nesse gel desviam quase todas as ondas, por isso o contato precisa ser bem feito;
  • ritmo das ondas: frequências mais lentas tendem a fragmentar melhor e a causar menos dano ao rim do que frequências mais rápidas;
  • controle da dor: a pessoa recebe analgesia e, muitas vezes, sedação. Movimentos e respiração muito profunda tiram a pedra do foco.

O material de informação ao paciente da EAU descreve um procedimento que dura cerca de uma hora. Pedras maiores podem precisar de mais de uma sessão para serem fragmentadas por completo.

Para quais cálculos a LECO costuma ser considerada

A escolha do tratamento é sempre individual. A diretriz europeia lembra que o sucesso da LECO depende principalmente de três grupos de fatores: as características da pedra, o corpo do paciente e a técnica usada.

Características da pedra

  • Tamanho: a EAU descreve bons resultados para pedras no rim de até 2 cm, com exceção das que ficam na parte de baixo do rim. Acima de 2 cm, a recomendação é dar preferência à nefrolitotripsia percutânea (cirurgia em que se chega ao rim por um pequeno acesso nas costas).
  • Localização: pedras no polo inferior do rim até se quebram, mas os fragmentos tendem a ficar parados ali. Por isso, nessa posição, a diretriz recomenda considerar cirurgia endoscópica mesmo para cálculos acima de 1 cm. Para pedras no ureter, a LECO e a ureteroscopia têm taxas de sucesso parecidas em três meses; a ureteroscopia deixa a pessoa livre da pedra mais cedo, enquanto a LECO tem menos complicações.
  • Dureza: pedras de oxalato de cálcio mono-hidratado, brushita e cistina são especialmente duras. Na tomografia, uma densidade acima de cerca de 1.000 unidades Hounsfield indica menor chance de fragmentação.

Características do paciente

A distância entre a pele e a pedra e o excesso de peso podem dificultar a chegada das ondas ao cálculo. Na obesidade grave, a EAU recomenda a ureteroscopia como primeira opção. Uma anatomia que dificulte a saída dos fragmentos também pesa contra a LECO.

Quando a LECO não é indicada

A diretriz europeia lista situações em que o procedimento não deve ser feito, ou só depois de corrigido o problema:

  • gravidez, pelos possíveis efeitos sobre o bebê;
  • distúrbios de coagulação ou uso de remédios que afinam o sangue: o problema precisa ser compensado antes e depois do procedimento. A suspensão de qualquer anticoagulante ou antiagregante é decidida junto com o médico que o prescreveu, nunca por conta própria;
  • infecção urinária não controlada;
  • aneurisma arterial perto da pedra;
  • obstrução abaixo do cálculo, que impediria os fragmentos de sair;
  • deformidades importantes da coluna ou obesidade grave que impeçam mirar a pedra.

Pessoas com marca-passo podem fazer LECO com cuidados técnicos específicos, e quem usa cardiodesfibrilador implantado precisa de preparo especial. Por isso, é importante contar ao urologista todos os remédios e dispositivos que você usa.

Como costuma ser o preparo

Antes de indicar a LECO, o urologista normalmente pede exames de imagem, de preferência a tomografia sem contraste, que mostra tamanho, posição e densidade da pedra. Também são feitos exames de urina e de sangue, incluindo a avaliação da coagulação quando há procedimento planejado. A EAU orienta tratar qualquer infecção urinária antes de quebrar a pedra.

Se a urina está estéril, o antibiótico preventivo não é necessário de rotina, segundo a diretriz; ele fica reservado para quando há suspeita de pedra infectada ou bactérias na urina. O cateter duplo J também não precisa ser colocado de rotina antes da LECO, embora possa ser usado em situações selecionadas.

O que esperar depois

É comum que a urina fique avermelhada por um ou alguns dias e que haja alguma dor ou cólica enquanto os fragmentos descem. A diretriz da EAU aponta que, em algumas pessoas, o urologista pode receitar remédios que ajudam a relaxar o ureter e facilitam a saída dos fragmentos. Também é útil, quando orientado, coar a urina para recolher pedaços da pedra: a análise da composição ajuda a planejar a prevenção de novos cálculos.

Entre as complicações descritas estão:

  • “rua de pedras” (steinstrasse): vários fragmentos enfileirados que entopem o ureter, relatada em cerca de 4% dos casos na tabela da diretriz;
  • cólica renal depois do procedimento;
  • necessidade de nova sessão ou de outro procedimento, quando a pedra não se fragmenta o suficiente;
  • infecção, que é rara mas exige atenção imediata se houver febre;
  • hematoma no rim, também pouco frequente;
  • alterações no ritmo do coração durante a aplicação.

Em comparação com a ureteroscopia e a nefrolitotripsia percutânea, a EAU descreve menos complicações no geral com a LECO. Em contrapartida, a chance de precisar repetir o tratamento é maior. Não há evidência de que o procedimento cause efeitos de longo prazo, como hipertensão ou diabetes.

Depois de algumas semanas, costuma ser feito um exame de controle para ver se os fragmentos saíram. Restos que ficam no rim podem crescer de novo, por isso o acompanhamento importa.

LECO, ureteroscopia ou cirurgia percutânea?

Não existe um tratamento que sirva para todo mundo. A LECO é uma opção menos invasiva, que não exige anestesia geral na maioria das vezes, mas tem limites claros de tamanho, posição e dureza da pedra. A ureteroscopia, feita pelo canal da urina com laser, tende a resolver em um só procedimento com mais frequência, à custa de mais complicações. A nefrolitotripsia percutânea é a referência para pedras grandes.

A decisão leva em conta a pedra, a saúde geral, os remédios em uso e também a rotina e a preferência de cada pessoa. Essa avaliação pode ser feita no consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, com os exames de imagem que você já tiver.

Quando procurar o urologista

  • Você tem um cálculo no rim ou no ureter e quer entender quais são as opções de tratamento para o seu caso.
  • Depois da LECO, surgiram febre, calafrios ou dor forte que não melhora com os remédios receitados: procure atendimento no mesmo dia.
  • A urina ficou com muito sangue, com coágulos, ou você não está conseguindo urinar.
  • Chegou a data do exame de controle ou a pedra voltou a dar sintomas semanas depois do procedimento.
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Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urolithiasis – Disease management (seção 3.4.5, Shock wave lithotripsy, e seleção do tratamento de cálculos renais e ureterais)
  2. European Association of Urology (EAU). Patient Information – Shock-wave lithotripsy (SWL) for kidney stones

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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