Estudo urodinâmico: como é o exame que mede o funcionamento da bexiga
O estudo urodinâmico avalia como a bexiga enche e esvazia. Entenda quando ele é indicado, como é feito, o que mede e como se preparar.
Em resumo
- O estudo urodinâmico é um conjunto de testes que mostra, em gráficos, como a bexiga se enche, guarda e elimina a urina.
- Ele não é feito em todo mundo: as diretrizes recomendam o exame em situações específicas, como antes de cirurgias, depois de tratamentos que não funcionaram ou quando a causa dos sintomas não está clara.
- A parte mais simples é a urofluxometria (urinar num aparelho que mede o jato); a parte completa usa sondas finas para medir pressões durante o enchimento e a micção.
- O resultado é interpretado junto com a história e o exame físico, porque o corpo pode variar de um dia para outro.
Escapes de urina, urgência, jato fraco ou sensação de bexiga que não esvazia são queixas comuns em mulheres, homens e crianças. Na maioria das vezes, a consulta, o exame físico e exames simples já explicam o quadro. Em alguns casos, porém, o urologista precisa ver a bexiga funcionando. É para isso que existe o estudo urodinâmico.
O que o estudo urodinâmico avalia
A bexiga tem duas tarefas: guardar a urina com pressão baixa e sem escapes, e esvaziar de forma completa na hora certa. Ultrassom e tomografia mostram a forma dos órgãos, não como eles trabalham. O estudo urodinâmico mede as pressões dentro da bexiga enquanto ela enche e enquanto a pessoa urina.
A diretriz de neuro-urologia da Associação Europeia de Urologia (EAU) descreve a investigação urodinâmica como o único método capaz de avaliar de forma objetiva a função e a disfunção do trato urinário inferior. Vários diagnósticos da área, como hiperatividade do músculo da bexiga, baixa complacência (bexiga “dura”), obstrução da saída da bexiga e contração fraca do músculo detrusor, são definidos a partir desse exame.
As etapas do exame
O nome “urodinâmica” engloba um conjunto de testes. O médico escolhe quais fazer conforme a dúvida a ser respondida.
Urofluxometria
É a parte mais simples e não usa sonda. A pessoa chega com a bexiga cheia e urina em um vaso ou funil ligado a um aparelho que registra o fluxo máximo, o volume urinado e o formato da curva do jato. Depois, costuma-se medir quanto de urina ficou na bexiga (o resíduo pós-miccional), em geral por ultrassom.
As diretrizes da EAU lembram que a bexiga precisa estar suficientemente cheia, porque o fluxo depende do volume; em homens, recomenda-se um volume urinado mínimo de 150 mL para o resultado ser confiável.
Cistometria de enchimento
Uma sonda bem fina é passada pela uretra até a bexiga, e outra é colocada no reto (ou, às vezes, na vagina) para medir a pressão do abdome. A bexiga é enchida aos poucos com soro em temperatura corporal, enquanto o aparelho registra as pressões. Durante essa fase, a equipe pergunta sobre as sensações: primeira vontade, vontade forte, urgência. Também pode pedir tosse ou força, para ver se há perda de urina.
Estudo de pressão e fluxo
Com a bexiga cheia, a pessoa urina com as sondas no lugar. O exame mede ao mesmo tempo a força que o músculo da bexiga faz e a velocidade do jato. Assim, o médico consegue diferenciar duas situações que, por fora, parecem iguais:
- obstrução: o músculo faz força, mas algo no caminho (como a próstata aumentada ou um estreitamento da uretra) dificulta a saída;
- bexiga com contração fraca: o caminho está livre, mas o músculo não tem força suficiente.
Essa distinção muda a conversa sobre tratamento.
Videourodinâmica e outros testes
Em casos selecionados, o exame é feito com contraste e imagens de raio-X ao mesmo tempo, a videourodinâmica. Ela mostra onde está a obstrução e pode revelar refluxo de urina para os rins ou divertículos. Para pessoas com doenças neurológicas, a EAU considera a videourodinâmica o procedimento de escolha, quando disponível.
Quando o exame é indicado
Um ponto que costuma surpreender: o estudo urodinâmico não é exame de rotina. Por ser invasivo, as diretrizes recomendam usá-lo quando o resultado pode mudar a decisão.
Nos homens com sintomas urinários, a EAU orienta realizar o exame em pacientes individuais, para indicações específicas antes de um tratamento invasivo, e cita como exemplos homens que já fizeram um tratamento invasivo sem sucesso, os que não conseguem urinar mais de 150 mL e quando a cirurgia é considerada em homens com menos de 50 ou mais de 80 anos. Um grande estudo randomizado citado na diretriz (UPSTREAM) concluiu que o uso rotineiro do exame em sintomas não complicados tem papel limitado e deve ser seletivo.
Nas mulheres, a diretriz da EAU traz uma conclusão parecida: estudos com mulheres com incontinência de esforço não mostraram melhora nos resultados do tratamento quando todas faziam o exame antes. Por outro lado, ele ajuda quando os sintomas são mistos, quando há dúvida diagnóstica, sinais de dificuldade para esvaziar a bexiga ou cirurgias anteriores.
Já nas pessoas com doença neurológica que afeta a bexiga, como lesão da medula, esclerose múltipla, mielomeningocele ou algumas cirurgias pélvicas extensas, a investigação urodinâmica tem papel central, porque pressões altas dentro da bexiga podem prejudicar os rins ao longo do tempo. Crianças com bexiga neurogênica também entram nesse grupo.
Como se preparar
As orientações exatas variam conforme o serviço que realiza o exame, então vale seguir a lista entregue no agendamento. De forma geral:
- Leve o diário miccional, se o médico pediu: anotar por alguns dias horários, volumes urinados, líquidos ingeridos e escapes ajuda muito a interpretar o exame.
- Informe se está com sintomas de infecção urinária (ardência, febre, urina com odor forte). Nesses casos, o exame costuma ser adiado.
- Leve a lista de remédios que usa, inclusive os da bexiga, da próstata, anticoagulantes e os neurológicos. Não suspenda nada por conta própria; pergunte ao médico.
- Avise sobre gestação, alergias, lesão medular ou episódios de pressão alta súbita durante procedimentos. Em pacientes com risco de disreflexia autonômica, a EAU recomenda monitorar pressão arterial e frequência cardíaca durante o exame.
- Chegue com a bexiga confortavelmente cheia se houver urofluxometria.
Durante e depois do exame
O exame costuma ser feito no consultório ou ambulatório, sem internação e sem anestesia geral. A passagem da sonda fina pode causar um desconforto breve. Ao longo do teste, a equipe conversa com a pessoa o tempo todo, porque as sensações relatadas fazem parte da avaliação. Pode ser preciso repetir uma etapa na mesma sessão para confirmar um achado, algo que a própria diretriz considera importante.
Depois, é comum sentir leve ardência ao urinar e notar urina levemente rosada por pouco tempo. Beber água ao longo do dia costuma ajudar. Febre, calafrios, dor que piora, sangue em quantidade ou dificuldade para urinar pedem contato com o médico.
Entendendo o resultado
O laudo traz gráficos e números, mas eles não são lidos sozinhos. A EAU destaca que um bom estudo é aquele que reproduz os sintomas da pessoa, passa por controle de qualidade e é interpretado no contexto clínico, lembrando que pode haver variação no mesmo indivíduo de um dia para outro. Por isso, o resultado é discutido na consulta de retorno, junto com a história, o exame físico e os outros exames, para decidir em conjunto o próximo passo: mudanças de hábitos, fisioterapia pélvica, medicamentos ou procedimentos.
Se você tem sintomas urinários que não melhoraram e quer entender se esse exame faz sentido no seu caso, a avaliação pode ser feita no consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG.
Quando procurar o urologista
- Você perde urina ao tossir, espirrar, ou sente urgência forte para urinar e os tratamentos iniciais não resolveram.
- O jato está fraco, você sente que a bexiga não esvazia por completo ou já tem resíduo de urina apontado no ultrassom.
- Há uma cirurgia de próstata ou de incontinência em discussão e o médico quer entender melhor o funcionamento da bexiga.
- Você tem uma doença neurológica (como lesão medular, esclerose múltipla ou mielomeningocele) e sintomas urinários.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Non-neurogenic Female LUTS – Diagnostic Evaluation (3.6 Urodynamics)
- European Association of Urology (EAU). Management of Non-neurogenic Male LUTS – Diagnostic Evaluation (4.12 Urodynamics)
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Neuro-Urology – Diagnostic Evaluation (Urodynamics)
- Sociedade Brasileira de Urologia. Portal da Urologia – conteúdo para o público
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.