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Hipospádia: quando a uretra do bebê não se abre na ponta do pênis

Hipospádia é uma alteração de nascença em que a uretra se abre abaixo da ponta do pênis. Veja como é o diagnóstico, a idade da cirurgia e o acompanhamento.

Sapatinhos de tricô azul-marinho, estetoscópio pediátrico dourado, manta branca dobrada e carrinho de madeira sobre fundo claro (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa

Em resumo

  • Na hipospádia, a abertura da uretra fica na parte de baixo do pênis, e não na ponta da glande; é uma alteração de nascença que não é rara em meninos.
  • Na maioria das vezes o diagnóstico é feito ao nascer, no exame físico, e não depende de exames de imagem.
  • Segundo a diretriz europeia, a cirurgia de correção costuma ser feita entre 6 e 18 meses de idade, quando indicada.
  • O acompanhamento continua depois da cirurgia, inclusive na adolescência, porque algumas complicações aparecem anos depois.

Logo nos primeiros dias de vida, o pediatra examina o bebê da cabeça aos pés, e às vezes chama a atenção da família para um detalhe no pênis: o furinho por onde sai o xixi não está na ponta. Esse achado tem nome, hipospádia, e costuma gerar muitas dúvidas e alguma ansiedade nos pais. Entender o que é, como se avalia e quando a cirurgia entra em cena ajuda a família a conversar com mais tranquilidade com a equipe que acompanha a criança.

O que é a hipospádia

Normalmente, a uretra, o canal que leva a urina da bexiga para fora, termina na ponta da glande. Na hipospádia, o desenvolvimento do pênis durante a gestação não se completa por inteiro, e a abertura da uretra (chamada de meato) fica mais abaixo, na face de baixo do pênis.

Além da posição do meato, é comum que venham juntos outros sinais:

  • prepúcio incompleto, que cobre só a parte de cima da glande, lembrando um capuz;
  • curvatura do pênis para baixo, mais visível durante a ereção;
  • em casos mais acentuados, diferenças no formato da glande e da bolsa escrotal.

A hipospádia não é rara. Um registro europeu citado pela diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) encontrou cerca de 18,6 casos a cada 10 mil meninos nascidos, com variações grandes entre países e continentes.

Por que acontece

Na maior parte das vezes não há um culpado. A EAU descreve uma combinação de fatores genéticos, placentários e ambientais. Entre os fatores associados estão:

  • outro caso na família, encontrado em cerca de 7% a 13% das famílias;
  • baixo peso ao nascer ou bebê pequeno para a idade gestacional;
  • hipertensão e pré-eclâmpsia na gestação;
  • diabetes da mãe, antes ou durante a gravidez.

Vale dizer com clareza aos pais: estar em um desses grupos não significa que algo foi feito de errado. São associações observadas em estudos, e não causas diretas.

Os tipos: distal, médio e proximal

A classificação mais usada leva em conta onde fica o meato:

  • distal (anterior): na glande ou na parte final do corpo do pênis;
  • média: ao longo do corpo do pênis;
  • proximal (posterior): perto da bolsa escrotal, na própria bolsa ou no períneo.

A diretriz lembra, porém, que a localização do furinho não conta a história toda. Para medir a gravidade, também pesam o tamanho do pênis, o grau de curvatura, o tamanho e o formato da glande e a qualidade da placa uretral, o tecido que será usado na reconstrução. Por isso a classificação definitiva pode mudar durante a própria cirurgia.

Como é feito o diagnóstico

Na grande maioria dos bebês, o diagnóstico é clínico: basta o exame físico ao nascer. A exceção é uma variante rara em que o prepúcio está completo e o meato só aparece quando a pele é puxada para trás.

Na consulta, o urologista descreve a posição e o tamanho do meato, o aspecto do prepúcio e da bolsa escrotal, o tamanho do pênis e a presença de curvatura. Também examina os testículos, porque a hipospádia pode vir acompanhada de testículo que não desceu.

Um ponto importante: quando a hipospádia aparece junto com testículos que não são palpáveis dos dois lados, a EAU recomenda investigação genética e hormonal logo após o nascimento, para diferenciar a hipospádia isolada das chamadas diferenças do desenvolvimento sexual, como a hiperplasia adrenal congênita. Já para a hipospádia isolada, o consenso da diretriz é não fazer exames de imagem de rotina.

Toda hipospádia precisa de cirurgia?

Não necessariamente. A decisão separa o que é importante para a função do que é uma questão de aparência, e é tomada junto com a família. Entre as situações que costumam levar à indicação de correção estão:

  • meato em posição que faz o jato sair desviado para baixo ou espalhado;
  • estreitamento do meato;
  • curvatura do pênis;
  • alterações do prepúcio e da bolsa escrotal.

A diretriz considera que curvaturas a partir de cerca de 30 graus merecem correção. Estudos com homens adultos que nunca operaram, a maioria com formas distais, mostram resultados variados: alguns não têm queixas, enquanto outros relatam jato espalhado, curvatura, dor na relação ou insatisfação com a aparência. Essa é uma conversa individual, que leva em conta o tipo de hipospádia e as expectativas da família.

Com que idade operar e como é a cirurgia

Segundo a EAU, a correção primária costuma ser feita entre 6 e 18 meses de idade. Os objetivos são deixar o pênis reto, construir um novo canal da uretra com calibre adequado, levar o meato até a glande e obter uma aparência aceitável com boa função.

A técnica é escolhida conforme a gravidade. Nas formas distais e médias, uma das técnicas mais usadas aproveita a própria placa uretral para formar o novo canal. Nas formas proximais, a cirurgia pode ser feita em duas ou mais etapas. Em geral, a criança fica alguns dias com uma sonda ou um pequeno tubo para drenar a urina e com curativo no pênis. A anestesia costuma incluir um bloqueio para controle da dor no pós-operatório.

Uma observação prática: a circuncisão em bebê com hipospádia exige cautela, segundo a EAU, porque o prepúcio pode ser necessário na reconstrução. O ideal é que a família converse com o urologista antes de qualquer procedimento no pênis.

O que esperar depois

Como toda cirurgia, a correção da hipospádia tem riscos, e a EAU deixa claro que eles crescem com a gravidade do caso. Entre as complicações descritas estão:

  • fístula, um pequeno orifício extra por onde sai urina;
  • estreitamento do meato ou da uretra, com jato fino;
  • abertura da sutura da glande;
  • curvatura que volta, às vezes só na puberdade.

Nas formas distais operadas pela primeira vez, a diretriz cita taxas de sucesso em torno de 85% a 90%. Nas formas proximais, as complicações são mais frequentes, e novas cirurgias podem ser necessárias ao longo da infância.

Por isso a EAU recomenda acompanhamento de longo prazo, inclusive na adolescência, para avaliar o jato urinário, a curvatura, a ejaculação e a satisfação do próprio paciente. A diretriz relata que a função sexual costuma ser bem preservada na vida adulta.

Como os pais podem ajudar

  • Leve as dúvidas anotadas para a consulta e pergunte qual é o tipo de hipospádia do seu filho.
  • Evite procedimentos no pênis, como a circuncisão, antes da avaliação do urologista.
  • Depois da cirurgia, siga as orientações de curativo e da sonda e observe o jato quando a criança começar a fazer xixi sem fralda.
  • Mantenha as revisões combinadas, mesmo quando tudo parece bem.

No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a avaliação de bebês e crianças com hipospádia começa pelo exame físico cuidadoso e por uma conversa franca com a família sobre o que muda na função, o que é estético e qual o melhor momento para decidir. Cada criança tem uma anatomia própria, e o plano é feito sob medida para ela.

Quando procurar o urologista

  • O pediatra ou a maternidade notou que o furinho do xixi não fica na ponta do pênis ou que o prepúcio tem um formato diferente.
  • O jato de urina sai desviado para baixo, espalhado, ou a criança faz força e o xixi sai em gotas.
  • Hipospádia junto com testículo que não desceu, principalmente dos dois lados: a avaliação deve ser feita logo após o nascimento.
  • Depois da cirurgia: jato fino, xixi saindo por outro ponto do pênis ou curvatura que aparece com o crescimento.
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Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology – 9. Hypospadias
  2. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology – Congenital Penile Curvature
  3. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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