Infecções e bexiga

Pielonefrite: quando a infecção urinária chega ao rim

Febre, calafrios e dor nas costas junto com ardor ao urinar podem indicar pielonefrite. Entenda os sinais, os exames e por que ela não deve esperar.

Ilustração de um rim em corte, com a pelve renal e o ureter, mostrando uma área avermelhada de inflamação na parte de cima, sobre fundo azul-marinho (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa

Em resumo

  • Pielonefrite é a infecção que sobe da bexiga e atinge o rim; é diferente da cistite, que fica restrita à bexiga.
  • Febre acima de 38 °C, calafrios, dor no flanco ou nas costas, náusea e vômitos são os sinais que levantam a suspeita.
  • As diretrizes europeias recomendam exame de urina, urocultura com antibiograma e um exame de imagem para afastar obstrução.
  • Gestantes, crianças pequenas, homens e pessoas com cálculo ou rim obstruído merecem atenção especial.

A maioria das infecções urinárias fica na bexiga e causa ardor, vontade de urinar o tempo todo e desconforto no pé da barriga. Às vezes, porém, as bactérias sobem pelo ureter e chegam ao rim. Esse quadro tem nome próprio, pielonefrite, e pede uma atenção diferente da que se dá a uma cistite comum. Saber reconhecer os sinais ajuda a buscar avaliação no momento certo.

Cistite e pielonefrite não são a mesma coisa

O trato urinário é dividido em uma parte baixa (bexiga e uretra) e uma parte alta (rins e ureteres). Quando a infecção atinge só a bexiga, fala-se em cistite. Quando alcança o rim e a pelve renal, a estrutura em forma de funil que recolhe a urina antes de ela descer pelo ureter, fala-se em pielonefrite.

A Associação Europeia de Urologia (EAU) classifica a pielonefrite entre as infecções urinárias sistêmicas, ao lado da prostatite aguda e da urossepse. A palavra “sistêmica” indica que o corpo como um todo reage à infecção, e não apenas o local onde ela começou. É por isso que febre e mal-estar geral costumam fazer parte do quadro.

Os sinais que levantam a suspeita

Segundo a diretriz da EAU, a pielonefrite deve ser suspeitada quando aparecem:

  • febre acima de 38 °C;
  • calafrios;
  • dor no flanco, a lateral do tronco logo abaixo das costelas, ou nas costas;
  • náusea e vômitos;
  • dor ao toque ou à percussão na região lombar, sobre o rim.

Esses sinais podem vir acompanhados dos sintomas típicos da cistite, como ardor e urgência para urinar, mas também podem aparecer sem eles. Por isso, febre com dor nas costas merece avaliação mesmo que a pessoa não sinta nada de diferente ao urinar.

Em crianças, os sinais podem ser outros

Meninos e meninas também têm pielonefrite, e nos menores o quadro costuma ser menos claro. A diretriz de urologia pediátrica da EAU lembra que bebês e crianças pequenas podem ter apenas febre, às vezes com vômitos, sonolência, irritabilidade ou falta de apetite. Em recém-nascidos a infecção pode até aparecer sem febre. Os sintomas urinários, como ardor e idas frequentes ao banheiro, ficam mais evidentes depois dos dois anos.

Para as crianças, o cuidado com a pielonefrite tem um motivo a mais: as infecções urinárias com febre são as que mais se associam a cicatrizes no rim. A mesma diretriz cita que o risco de cicatriz renal aumenta conforme se repetem os episódios de infecção com febre, e destaca o tratamento sem demora como forma de reduzir esse risco. Em crianças com infecções repetidas, vale investigar causas como o refluxo da urina da bexiga para o rim.

Como é feito o diagnóstico

A avaliação começa pela conversa e pelo exame físico. Em seguida, a EAU recomenda:

  1. Exame de urina, incluindo a pesquisa de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e nitrito, que pode ser feito com fita reagente.
  2. Urocultura com antibiograma em todos os casos de pielonefrite. A cultura identifica a bactéria, e o antibiograma mostra a quais antibióticos ela responde.
  3. Exame de imagem das vias urinárias para afastar problemas urológicos que precisam de solução urgente.

O primeiro exame de imagem costuma ser o ultrassom, indicado principalmente para quem já teve cálculo renal, tem alteração da função dos rins ou tem outras condições que favorecem obstrução. A diretriz orienta considerar uma tomografia ou outro exame mais detalhado se a febre continuar depois de 72 horas de tratamento ou, de imediato, se a pessoa piorar. Nas gestantes, a preferência é por ultrassom ou ressonância magnética, para evitar radiação ao bebê.

Por que a obstrução muda tudo

Um dos pontos que a EAU considera essenciais é diferenciar logo a pielonefrite comum da pielonefrite obstrutiva. Quando algo impede a urina de descer, como um cálculo parado no ureter, a urina infectada fica represada no rim. Nessa situação, a infecção pode evoluir rapidamente para urossepse, uma infecção grave que atinge o organismo todo.

Nesses casos, o antibiótico sozinho pode não bastar. A diretriz orienta que alterações anatômicas identificadas ou suspeitas sejam avaliadas e tratadas, o que pode incluir desobstruir o rim, além do antibiótico. A forma de fazer isso é definida caso a caso, e é aí que entra o papel do urologista.

Como costuma ser o tratamento

O tratamento da pielonefrite é feito com antibiótico, e a escolha leva em conta a gravidade do quadro, o resultado da cultura e o padrão de resistência das bactérias na região. A diretriz europeia descreve dois cenários:

  • Tratamento em casa, com antibiótico por via oral, para quem está estável, consegue beber líquidos e tomar os remédios.
  • Internação, com antibiótico pela veia no início, para quem tem sinais de gravidade, vômitos persistentes, obstrução ou outras complicações. Quando a pessoa melhora e volta a aceitar líquidos, o tratamento pode passar para comprimidos.

A EAU também informa que alguns antibióticos muito usados na cistite, como a nitrofurantoína e a fosfomicina oral, não devem ser usados para tratar pielonefrite, porque não há dados suficientes de que funcionem no rim. É um dos motivos pelos quais não se deve repetir por conta própria uma receita antiga de infecção urinária.

Em homens com infecção urinária febril ou pielonefrite, a diretriz recomenda um tempo de tratamento mais longo, de pelo menos duas semanas, porque a próstata costuma estar envolvida. Nas gestantes, a pielonefrite exige cuidado especial, já que pode trazer complicações para a mãe e aumentar o risco de parto prematuro.

A escolha do remédio, da dose e da duração é sempre uma decisão médica individual.

Depois do tratamento

A EAU informa que, se a pessoa ficou bem e não tem mais sintomas, não há indicação de repetir exame de urina ou urocultura apenas para conferir. O que merece atenção é a volta dos sintomas, a febre que não cede ou infecções que se repetem.

Quando a pielonefrite acontece mais de uma vez, ou surge em homens, crianças ou pessoas com cálculo, vale investigar se existe alguma causa por trás, como obstrução, refluxo, alteração da bexiga ou da próstata. Nesses casos, a avaliação com o urologista ajuda a entender por que a infecção chegou ao rim e o que pode ser feito para reduzir novos episódios.

Quando não esperar

Febre, calafrios e dor nas costas em quem tem sintomas urinários não são para “esperar passar”. Procure atendimento no mesmo dia e vá ao pronto-socorro se houver vômitos que impeçam tomar líquidos, confusão, tontura, queda de pressão ou piora rápida. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a avaliação de infecções urinárias de repetição e das suas causas faz parte do acompanhamento urológico de mulheres, homens e crianças.

Quando procurar o urologista

  • Febre, calafrios ou dor nas costas junto com ardor ou vontade frequente de urinar: procure atendimento no mesmo dia.
  • Vômitos que impedem tomar líquidos ou remédios, confusão, queda de pressão ou piora rápida: vá ao pronto-socorro.
  • Febre que continua depois de dois a três dias de tratamento, ou infecções que voltam com frequência.
  • Bebê ou criança com febre sem causa aparente, irritabilidade ou recusa alimentar: avalie com o pediatra e, se preciso, com o urologista.
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Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections – 3.6 Pyelonephritis e 3.7 Systemic urinary tract infections
  2. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections
  3. European Association of Urology (EAU). Paediatric Urology – Urinary tract infections in children

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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