Estenose de uretra: quando o jato fraco vem de uma cicatriz no canal
Estenose de uretra é o estreitamento do canal da urina por cicatriz. Veja causas, sintomas como jato fraco e gotejamento, exames e opções de tratamento.
Em resumo
- Estenose de uretra é um estreitamento do canal que leva a urina da bexiga para fora, causado por fibrose (cicatriz) na parede da uretra.
- As causas mais comuns são manipulações da uretra (sonda, cistoscopia, cirurgias e radioterapia da próstata), traumas na região do períneo e inflamações, como uretrites e líquen escleroso.
- Jato fraco, sensação de esvaziamento incompleto e gotejamento depois de urinar são queixas frequentes; o diagnóstico é confirmado por exames como uretrografia, uretrocistoscopia ou ultrassom da uretra.
- O tratamento depende do local, do comprimento e da história de cada estenose: dilatação, uretrotomia interna ou uretroplastia (cirurgia de reconstrução).
Quando o jato de urina fica fraco, muita gente pensa logo na próstata. Ela é uma causa frequente, mas não a única. Um estreitamento no próprio canal da urina, a uretra, também atrapalha a passagem do jato e pode aparecer em adultos jovens, em homens que já passaram por algum procedimento urológico e, com menos frequência, em mulheres e crianças. Esse estreitamento se chama estenose de uretra.
O que é a estenose de uretra
A uretra é o tubo que leva a urina da bexiga até o lado de fora. Na estenose, um trecho dessa parede é substituído por tecido de cicatriz (fibrose), que é mais duro e menos elástico. O resultado é um canal mais estreito.
Segundo a diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU), nos homens a maior parte das estenoses fica na uretra anterior (92,2% dos casos), principalmente no trecho chamado uretra bulbar (46,9%), na região do períneo. A frequência aumenta bastante depois dos 55 anos.
Nas mulheres, a estenose de uretra é rara. A EAU aponta aumento importante depois dos 64 anos. Em crianças, ele pode surgir na abertura da uretra, por exemplo após cirurgia de fimose ou correção de hipospádia.
Por que a cicatriz se forma
A diretriz europeia descreve várias causas, que mudam de importância conforme a região do mundo e o acesso à saúde:
- Manipulação da uretra por procedimentos médicos: sonda vesical, cistoscopia, cirurgias da próstata (inclusive as endoscópicas, pelo canal) e radioterapia da próstata. Em países com amplo acesso a serviços de saúde, esse grupo responde por 32% a 79% dos casos.
- Traumas: quedas “a cavaleiro”, em que a pessoa cai com o períneo sobre uma barra ou um objeto, chutes na região e fraturas da bacia em acidentes de trânsito. O trauma externo é a segunda causa mais comum em adultos.
- Infecções sexualmente transmissíveis: uretrites, especialmente a gonorreia, já foram responsáveis por cerca de 40% das estenoses. Com diagnóstico e tratamento rápidos, esse número caiu muito onde há acesso à saúde, mas segue alto em regiões com menos recursos.
- Líquen escleroso: uma doença inflamatória da pele da glande e do prepúcio, de provável origem autoimune, que pode atingir a uretra e causar estenoses longas. É mais comum em homens não circuncidados.
- Causas congênitas e desconhecidas: em uma parte importante dos casos não se encontra um motivo claro.
Sinais que levantam a suspeita
A apresentação varia bastante. Em uma série de 611 pacientes com estenose confirmada citada pela EAU, a forma mais comum de chegada ao médico foram os sintomas urinários (54,3%), seguidos de retenção urinária aguda (22,3%), infecção urinária (6,1%) e dificuldade para passar uma sonda (4,8%).
Entre os sintomas, os mais relatados são:
- jato fraco ou fino, a queixa individual mais frequente em um dos estudos (49%);
- sensação de esvaziamento incompleto da bexiga;
- gotejamento depois de urinar, presente em 73% dos pacientes de uma grande série;
- urinar várias vezes ao dia e jato em spray;
- dor na bexiga ou no canal.
A diretriz da Associação Americana de Urologia (AUA) recomenda que o médico considere a estenose de uretra sempre que houver jato diminuído, esvaziamento incompleto, ardência ao urinar, infecção urinária ou aumento progressivo do volume de urina que sobra na bexiga.
Como é feito o diagnóstico
A avaliação começa pela conversa: quando os sintomas começaram, se houve sonda, cirurgia, radioterapia, trauma ou uretrite no passado e quais tratamentos já foram feitos. A EAU também recomenda perguntar sobre ereção e ejaculação, porque alterações da função sexual são comuns em quem tem estenose. Depois vêm o exame físico e o exame de urina, com cultura se houver suspeita de infecção.
Os exames iniciais mais usados são:
- Urofluxometria, que mede a força e o formato do jato. Na estenose, o fluxo costuma ser baixo e com aspecto achatado, em platô.
- Ultrassom para medir o resíduo pós-miccional, ou seja, quanto de urina fica na bexiga depois de urinar.
Para confirmar o diagnóstico e planejar o tratamento, a AUA lista a uretrocistoscopia (exame com uma câmera fina pelo canal), a uretrografia retrógrada (raio-X com contraste injetado pela uretra), a uretrocistografia miccional e o ultrassom da uretra. A uretrografia mostra onde está a estenose e qual o seu comprimento, o que orienta a técnica.
Opções de tratamento
A escolha leva em conta o local, o comprimento, a causa, os tratamentos anteriores e a preferência do paciente.
Observação
Estreitamentos discretos, descobertos por acaso em exames e que não causam sintomas, em geral não precisam de intervenção, segundo a EAU, mas merecem acompanhamento.
Dilatação e uretrotomia interna
Na dilatação, o trecho estreito é alargado com instrumentos próprios. Na uretrotomia interna, a cicatriz é cortada por dentro, com auxílio de uma câmera. A AUA considera essas opções, ao lado da uretroplastia, para estenoses curtas (menos de 2 cm) da uretra bulbar. A EAU desaconselha a uretrotomia em estenoses do pênis e o uso de dilatação ou uretrotomia como tratamento isolado de estenoses longas. As duas diretrizes alertam que repetir esses procedimentos várias vezes tende a não resolver a longo prazo e pode deixar a cicatriz mais extensa e complexa.
Uretroplastia
A uretroplastia é a cirurgia aberta de reconstrução da uretra. Dependendo do caso, o trecho doente é retirado e as pontas são unidas, ou a uretra é ampliada com um enxerto, que na maioria das vezes vem da mucosa da boca, primeira escolha segundo a AUA. Essa cirurgia é indicada, por exemplo, nas estenoses longas, nas do pênis e nas que voltaram depois de dilatação ou uretrotomia. Sobre a vida sexual, a AUA relata que alterações da ereção após a uretroplastia anterior costumam ser transitórias, com melhora em cerca de seis meses, e que o risco de uma disfunção erétil nova fica em torno de 1%; mudanças na ejaculação foram descritas em parte dos homens operados na uretra bulbar.
Depois de qualquer tratamento, as diretrizes recomendam acompanhamento para identificar cedo uma eventual volta dos sintomas.
O que dá para prevenir
Parte das estenoses pode ser evitada. Usar preservativo e procurar atendimento logo diante de corrimento ou ardência no canal reduz o risco de uretrites mal tratadas; o Ministério da Saúde oferece testagem e tratamento das infecções sexualmente transmissíveis. Depois de uma queda sobre o períneo, sangue na urina ou dificuldade para urinar pedem avaliação médica. E quem já passou por sonda, cirurgia ou radioterapia da próstata deve comentar qualquer mudança no jato nas consultas de retorno.
Jato fraco merece investigação
Jato fraco não precisa ser aceito em silêncio. Identificar a causa, seja a próstata, a bexiga ou a uretra, muda completamente o tratamento. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a avaliação dos sintomas urinários é feita de forma individualizada, para homens e mulheres, com os exames indicados para cada situação.
Quando procurar o urologista
- O jato de urina ficou fino ou fraco, ou você demora e faz força para urinar.
- Você tem gotejamento depois de urinar, jato em spray ou sensação de que a bexiga não esvazia.
- Os sintomas apareceram depois de sonda, cirurgia de próstata, radioterapia, queda sobre o períneo ou uretrite.
- Houve dificuldade para passar sonda, infecções urinárias repetidas ou retenção de urina (não conseguir urinar), que exige atendimento imediato.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Urethral Strictures Guidelines – Definition, Epidemiology, Aetiology and Prevention
- European Association of Urology (EAU). Urethral Strictures Guidelines – Diagnostic Evaluation
- European Association of Urology (EAU). Urethral Strictures Guidelines – Disease Management in Males
- American Urological Association (AUA). Urethral Stricture Guideline
- Ministério da Saúde. Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST)
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.