Procedimentos

Cateter duplo J: para que serve, como conviver e quando retirar

Entenda o que é o cateter duplo J, por que ele é colocado, os incômodos esperados, os sinais de alerta e por que a retirada no prazo combinado é importante.

Cateter duplo J, tubo fino e flexível com uma curva em cada ponta, sobre fundo claro (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa: ErwinMeier / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em resumo

  • O duplo J é um tubo fino e flexível, com uma curva em cada ponta, que fica por dentro do ureter e garante a passagem da urina do rim até a bexiga.
  • Ele é usado de forma temporária, por exemplo para desobstruir um rim bloqueado por cálculo ou para proteger o ureter depois de alguns procedimentos.
  • Vontade frequente de urinar, ardência, urina rosada e dor nas costas ao urinar são incômodos comuns enquanto o cateter está no lugar.
  • O cateter precisa ser retirado ou trocado no prazo definido pelo urologista; esquecê-lo aumenta o risco de infecção, obstrução e depósitos no tubo.

Muita gente só ouve falar do cateter duplo J depois de uma cirurgia de cálculo ou num pronto-socorro, quando o urologista explica que “vai ficar um tubinho por dentro”. Logo vêm as dúvidas: dá para trabalhar? É normal sentir vontade de urinar o tempo todo? E quando ele sai?

O que é o duplo J e onde ele fica

O ureter é o canal fino que leva a urina de cada rim até a bexiga. O duplo J é um tubo de material plástico flexível, com pequenos furos ao longo do corpo, colocado inteiro por dentro desse canal. Uma ponta fica enrolada dentro do rim e a outra dentro da bexiga. Essas duas curvas, parecidas com a letra J, dão nome ao cateter e servem para que ele não saia do lugar.

Como ele fica totalmente dentro do corpo, não há nada para fora na maioria dos casos. A exceção é o duplo J “com fio”: um fio fino sai pela uretra e permite retirar o cateter puxando-o, sem novo procedimento, quando o tempo previsto é curto.

Por que o urologista coloca um duplo J

O objetivo é sempre o mesmo: manter a urina passando do rim para a bexiga enquanto algo impede ou pode impedir esse caminho. As situações mais comuns são:

  • rim obstruído por cálculo com infecção ou dor que não cede: a diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) recomenda desobstruir com urgência quando há infecção grave com cálculo bloqueando o rim, e considera o duplo J e a nefrostomia (um tubo colocado pelas costas) igualmente eficazes para isso. O tratamento definitivo do cálculo fica para depois que a infecção estiver controlada;
  • depois de uma ureteroscopia (cirurgia pelo canal da urina para tratar cálculos), quando o ureter ficou inchado, machucado, com sangramento, com fragmentos de pedra ou em casos de dúvida. A EAU deixa claro que, em ureteroscopia sem complicações, o cateter não é obrigatório: a decisão é individual;
  • quando o ureter é estreito demais para o aparelho passar. Nessa situação, a diretriz descreve a opção de deixar um duplo J e fazer a ureteroscopia cerca de 7 a 14 dias depois, quando o canal estiver mais dilatado;
  • gestação com cálculo que obstrui o rim e causa sintomas, situação em que o cateter é uma das alternativas consideradas pela equipe;
  • outras causas de obstrução e algumas cirurgias do rim, do ureter e da bexiga, em adultos e também em crianças.

Incômodos que costumam aparecer

O duplo J é um corpo estranho encostado na parede da bexiga, por isso é comum que ele seja percebido. A EAU reconhece que o cateter pode piorar a qualidade de vida enquanto está no lugar, justamente por causa desses sintomas:

  • vontade de urinar mais vezes e com urgência;
  • ardência ou desconforto ao urinar, às vezes sentido na ponta do pênis nos homens ou no fundo da pelve nas mulheres;
  • dor na região das costas do lado do cateter na hora de urinar, porque um pouco de urina pode voltar pelo tubo em direção ao rim;
  • urina rosada ou com leve sangue, principalmente depois de esforço físico.

Esses sintomas variam muito de pessoa para pessoa. Alguns remédios podem ajudar: a diretriz europeia aponta que medicamentos da classe dos alfabloqueadores podem reduzir os sintomas relacionados ao cateter. Analgésicos e outros remédios para a bexiga também podem ser usados, mas sempre com receita, porque a escolha depende da idade, das outras doenças e dos medicamentos que cada pessoa já usa.

Cuidados no dia a dia

Na maioria dos casos, a vida segue com algumas adaptações:

  • beba líquidos ao longo do dia, conforme a orientação recebida, para manter a urina clara (quem tem restrição de líquidos por problema no coração ou nos rins deve seguir o que o médico definiu);
  • atividades leves estão liberadas; esforços intensos podem aumentar o desconforto e o sangue na urina, então vale reduzir o ritmo se isso acontecer;
  • não puxe o fio, se houver, antes da data combinada, e mantenha-o fixado como foi orientado;
  • relação sexual costuma ser possível quando o desconforto permite, mas no duplo J com fio é melhor conversar antes com o urologista;
  • tome os remédios receitados nos horários indicados e não interrompa antibióticos por conta própria.

Sinais de alerta

Alguns sintomas fogem do esperado e pedem contato rápido com o urologista ou atendimento de urgência:

  • febre (temperatura de 38 °C ou mais), calafrios ou queda do estado geral;
  • sangue vivo em grande quantidade ou com coágulos;
  • não conseguir urinar ou urinar muito pouco;
  • dor forte que não melhora com a medicação receitada;
  • saída do cateter ou do fio antes do previsto.

Febre com cateter merece atenção especial: infecção com rim obstruído pode evoluir rápido, e a diretriz europeia recomenda desobstrução e antibiótico com urgência nesse cenário.

Quanto tempo o duplo J fica

Não existe um prazo único. A própria EAU afirma que a duração ideal não é conhecida e depende do motivo pelo qual o cateter foi colocado. Depois de uma ureteroscopia, o material de orientação da EAU para pacientes informa que ele costuma ser retirado após algumas semanas; quando há fio, o tempo costuma ser de poucos dias. Em situações específicas, como obstruções que não se resolvem, o cateter pode precisar ser trocado periodicamente.

O que vale para todos os casos é: sair do hospital já sabendo a data prevista de retirada ou troca, e anotar essa data.

Como é a retirada

Quando há fio, a retirada é feita puxando-o devagar, em geral no consultório ou conforme a orientação recebida. Sem fio, o cateter é retirado por cistoscopia: um aparelho fino com câmera entra pela uretra até a bexiga, a ponta do cateter é apreendida e ele sai pelo mesmo caminho. O procedimento é rápido, pode ser feito com gel anestésico ou sedação, e a EAU o classifica entre os procedimentos de baixo risco de sangramento. Ardência e urina rosada por um ou dois dias depois são comuns.

Por que não esquecer o cateter

Um duplo J deixado além do tempo previsto pode acumular depósitos minerais (incrustação), entupir e favorecer infecções. A diretriz europeia associa o tempo maior de permanência do cateter a mais complicações infecciosas e registra que, na gestação, a tendência à incrustação é maior. Por isso, se a data se aproxima e não há retirada marcada, ou se você mudou de cidade nesse período, procure o urologista antes do prazo.

No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a consulta de acompanhamento é o momento de revisar sintomas, exames e o plano de retirada.

Quando procurar o urologista

  • Você está com duplo J e teve febre, calafrios ou mal-estar intenso: procure atendimento no mesmo dia.
  • A urina ficou com sangue vivo em grande quantidade, com coágulos, ou você não consegue urinar.
  • A dor não melhora com os remédios receitados ou o desconforto está atrapalhando muito a rotina.
  • A data de retirada está chegando (ou já passou) e ainda não há um horário marcado.
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Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urolithiasis – Disease management (drenagem, ureteroscopia e uso de cateteres)
  2. European Association of Urology (EAU). Patient Information – Ureteroscopy (URS) for kidney stones

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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