Hidrocele: líquido ao redor do testículo em crianças e adultos
Hidrocele é o acúmulo de líquido ao redor do testículo. Veja diferenças em bebês e adultos, quando observar, quando operar e o papel do ultrassom.
Em resumo
- Hidrocele é o acúmulo de líquido entre as camadas da túnica vaginal, a membrana que envolve o testículo; costuma aparecer como aumento indolor da bolsa escrotal.
- Em bebês, a maioria das hidroceles melhora sozinha no primeiro ano de vida; a observação é a conduta inicial recomendada pela Associação Europeia de Urologia (EAU).
- Em adultos, a hidrocele pode ser idiopática ou secundária a trauma, inflamação, cirurgia de varicocele ou, raramente, a doença do testículo; o ultrassom ajuda a afastar outras causas.
- Cirurgia fica reservada para hidrocele persistente, volumosa, sintomática ou com suspeita de hérnia ou de problema no testículo; agentes esclerosantes não devem ser usados em crianças.
Notar que um lado da bolsa escrotal está maior, sem dor, é um motivo comum de consulta em pediatria e também em adultos. Muitas vezes o achado é uma hidrocele: líquido acumulado ao redor do testículo. Entender o que ela é, como se comporta em cada idade e quando precisa de cirurgia ajuda a reduzir a ansiedade e a procurar avaliação no momento certo.
O que é a hidrocele
A hidrocele é definida pela Associação Europeia de Urologia (EAU) como uma coleção de líquido entre as camadas parietal e visceral da túnica vaginal, a membrana que envolve o testículo. Em meninos e homens, o quadro clássico é o aumento suave e geralmente indolor da bolsa escrotal, que pode lembrar um “balão” de água.
Há tipos diferentes:
- Hidrocele comunicante: o processo vaginal (canal que, no feto, liga o abdome ao escroto) permanece aberto. Líquido da cavidade abdominal passa para a bolsa escrotal. O volume pode variar ao longo do dia, com o choro ou a atividade.
- Hidrocele não comunicante: o canal já fechou, e o líquido se acumula por desequilíbrio entre produção e reabsorção. Em adultos, essa forma costuma ser adquirida.
- Hidrocele do cordão: quando a obliteração deixa um trecho médio do processo vaginal aberto, forma-se um cisto ao longo do cordão espermático.
- Hidrocele abdominoescrotal: forma rara, em que o líquido se estende em “ampulheta” para dentro do abdome.
A EAU lembra que o processo vaginal está presente em cerca de 80% a 94% dos recém-nascidos e em cerca de 20% dos adultos. Em meninas, um equivalente raro pode ocorrer ao longo do canal de Nuck.
Como aparece em bebês e crianças
Na infância, a hidrocele congênita é frequente. A EAU recomenda, com grau forte, observar a maioria dos lactentes antes de considerar cirurgia, porque a tendência à resolução espontânea é alta: cerca de 92% das hidroceles em menores de um ano melhoram sozinhas; acima dos três anos, a taxa cai para cerca de 43%.
A observação inicial tem pouco risco: a evolução para hérnia inguinal encarcerada é rara, e não há evidência de que a hidrocele, por si só, danifique o testículo. Quando a hidrocele parece adquirida e não comunicante, a EAU ainda recomenda esperar seis a nove meses, com chance de resolução espontânea em torno de 75%.
Há exceções: se houver suspeita de hérnia inguinal associada ou de doença no testículo, a cirurgia não deve ser adiada. O Ministério da Saúde, nos protocolos de encaminhamento da atenção básica, inclui as patologias escrotais benignas (hidrocele, varicocele e cistos) entre as condições que o clínico descreve e, quando indicado, encaminha ao especialista, pedindo informações sobre sintomas e, se houver, o resultado da ecografia escrotal.
Hidrocele no adolescente e no adulto
No adulto, a hidrocele não comunicante costuma surgir por desequilíbrio na produção e na absorção do líquido da túnica vaginal. A EAU cita, entre as situações que podem precedê-la, trauma discreto, torção testicular, epididimite, cirurgia de varicocele (por ligadura de vasos linfáticos) e recorrência após correção prévia. Em raros casos, o líquido acompanha uma doença do próprio testículo — por isso o exame físico e o ultrassom importam.
O aumento costuma ser indolor ou só desconfortável quando o volume é grande. Dor intensa, vermelhidão e febre apontam para outra causa, como inflamação ou urgência.
Como o médico diferencia de outras causas
A hidrocele comunicante costuma ser reconhecida pela história e pelo exame: volume que muda e, em muitos casos, transiluminação positiva (a luz atravessa a bolsa). A EAU alerta, porém, que intestino com líquido e alguns tumores pré-púberes também podem transiluminar — por isso a interpretação é clínica, não só do “teste da lanterna”.
Quando há dúvida sobre a natureza da massa, o testículo não é palpável ou se suspeita de hidrocele abdominoescrotal, a EAU recomenda ultrassom escrotal (recomendação forte). O Doppler ajuda a distinguir hidrocele de varicocele e de torção, embora essas condições possam coexistir com líquido ao redor do testículo.
É importante não confundir com situações de urgência. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) reforça que a torção de testículo — dor súbita e intensa, mais comum em adolescentes — exige atendimento imediato. O Ministério da Saúde também lista a suspeita de torção (dor aguda, edema e nódulo de consistência macia) como motivo de encaminhamento à emergência. Já o tumor de testículo, tema abordado no Portal da Urologia da SBU, costuma se apresentar como nódulo endurecido; qualquer alteração persistente na bolsa merece avaliação, mesmo sem dor.
Quando observar e quando tratar
Observação
Em bebês, a regra geral da EAU é esperar, sobretudo no primeiro ano. Em hidroceles adquiridas sem sinais de alerta, também se pode observar por meses. Em adultos com hidrocele pequena, estável e sem sintomas, o acompanhamento clínico, com ultrassom quando indicado, costuma ser suficiente.
Cirurgia
A persistência da hidrocele, o volume grande, o desconforto e a suspeita de hérnia ou de doença testicular são motivos para operar. Na criança, a correção clássica descrita pela EAU é a ligadura do processo vaginal patente por via inguinal, deixando o coto distal aberto. Na hidrocele do cordão, a massa cística é retirada ou aberta. Técnicas laparoscópicas existem; a EAU não aponta uma superior à outra. Em hidrocele adquirida não comunicante, a abordagem costuma ser escrotal (técnicas de Lord ou Jaboulay/Winkelmann).
A EAU recomenda não usar agentes esclerosantes em crianças, pelo risco de peritonite química quando ainda há comunicação com o abdome (recomendação forte). Em mãos experientes, o risco de lesão testicular na correção de hidrocele ou hérnia é baixo.
O que esperar na consulta
A conversa esclarece desde quando o aumento existe, se o volume muda, se há dor, história de trauma, infecção, cirurgia prévia ou sintomas urinários. O exame físico avalia a bolsa, o cordão e a possibilidade de hérnia. O ultrassom, quando pedido, confirma o líquido, verifica se o testículo é normal e afasta outras lesões.
O protocolo do Ministério da Saúde para patologias escrotais benignas destaca que o encaminhamento ao urologista deve trazer a descrição dos sintomas (tempo, frequência, fatores de alívio ou piora) e, se realizado, o laudo da ecografia escrotal. Isso organiza o cuidado e evita idas desnecessárias, sem atrasar os casos que realmente precisam de especialista.
Aumento da bolsa merece avaliação, sem alarme automático
Nem todo aumento da bolsa escrotal é grave, e boa parte das hidroceles de bebês some com o tempo. Mesmo assim, o exame médico define se basta observar, se é hora de operar ou se há outra causa a investigar. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a avaliação da bolsa escrotal em crianças e adultos é feita de forma individualizada, com os exames indicados para cada idade e cada história.
Quando procurar o urologista
- Há aumento indolor de um ou dos dois lados da bolsa escrotal, em bebê, criança ou adulto.
- O volume muda ao longo do dia, aumenta com o choro ou a atividade, ou há dúvida se pode ser hérnia inguinal.
- A hidrocele causa desconforto, atrapalha o dia a dia ou continua crescendo.
- Apareceu dor intensa e súbita no testículo, vermelhidão ou endurecimento: nesse caso, procure pronto-atendimento.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology – Hydrocele
- Ministério da Saúde / UFRGS. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada – Volume VI: Urologia (patologias escrotais benignas)
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Torção de testículo: o que é preciso saber! – Portal da Urologia
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Tumor de testículo – Portal da Urologia
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.