Saúde sexual e fertilidade

Dor no testículo que não passa: o que é a dor escrotal crônica

Dor no testículo ou na bolsa escrotal que dura mais de três meses tem nome e caminho de avaliação. Veja causas, exames, tratamento e sinais de urgência.

Caderno de anotações aberto com canetas e óculos sobre mesa de madeira, lembrando o registro diário dos sintomas (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa: Shixart1985 / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em resumo

  • Dor no testículo, no epidídimo ou no cordão espermático que persiste ou volta por mais de três meses é chamada de dor escrotal crônica.
  • Parte dos casos tem causa identificável, como varicocele, hidrocele, inflamação ou hérnia; em outros, nenhuma lesão é encontrada e a dor envolve os nervos da região.
  • A dor após vasectomia e após correção de hérnia inguinal são formas reconhecidas pelas diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU).
  • O tratamento é individual e por etapas, muitas vezes com mais de um profissional; dor súbita e intensa é outra situação e exige pronto-atendimento.

Uma dor chata em um dos testículos, que aparece no fim do dia, piora depois de ficar muito tempo em pé ou simplesmente não vai embora, é uma queixa mais comum do que parece. Muitos homens convivem com ela por meses sem procurar ajuda, às vezes por constrangimento, às vezes porque “não é tão forte assim”. Essa dor tem nome, tem causas conhecidas e tem um caminho de avaliação organizado.

Quando a dor passa a ser considerada crônica

A Associação Europeia de Urologia (EAU), seguindo a classificação internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde (CID-11), considera crônica a dor que persiste ou volta por mais de três meses. Quando ela é sentida no testículo, no epidídimo (o canal que fica atrás do testículo) ou no ducto deferente, fala-se em dor escrotal crônica. Alguns textos também usam o termo orquialgia.

A dor pode ser contínua ou em episódios, de um lado ou dos dois, e pode se espalhar para a virilha, o períneo ou o baixo ventre.

Por que o testículo dói por tanto tempo

Quando existe uma causa identificável

Em parte dos casos, a avaliação encontra uma alteração que explica a dor ou contribui para ela. Entre as situações que o urologista costuma considerar estão:

  • varicocele, a dilatação das veias do cordão espermático, que pode dar sensação de peso;
  • hidrocele ou cistos do epidídimo;
  • inflamação ou infecção do epidídimo e do testículo, inclusive quadros que não se resolveram por completo;
  • hérnia inguinal;
  • problemas fora da bolsa escrotal que se manifestam ali, como alterações na coluna, na musculatura do assoalho pélvico ou na próstata.

Quando nenhuma lesão é encontrada

Muitas vezes, segundo a EAU, a dor escrotal não está associada a nenhuma doença específica. A bolsa escrotal é inervada pelos nervos ilioinguinal, genitofemoral e pudendo, e qualquer problema ou intervenção ao longo do trajeto desses nervos pode ser percebido como dor no testículo. Nesses casos, a diretriz descreve a síndrome dolorosa escrotal primária, na qual o próprio sistema nervoso passa a ter um papel central na manutenção da dor.

Isso não significa que a dor seja “psicológica” ou imaginária. Significa que o tratamento precisa olhar para os nervos, os músculos e o impacto da dor na vida da pessoa, e não apenas para o testículo.

Duas formas que merecem atenção especial

Dor depois da vasectomia

A EAU descreve a dor escrotal após vasectomia como uma forma especial dessa síndrome. Os estudos citados pela diretriz mostram incidência de 2% a 20% entre os homens vasectomizados, na maioria das vezes leve. A diretriz da Associação Americana de Urologia (AUA) informa que dor escrotal crônica com impacto negativo na qualidade de vida pode ocorrer em 1% a 2% dos homens e recomenda que esse risco faça parte da conversa antes do procedimento. A EAU também registra risco menor com a técnica sem bisturi.

Dor depois da cirurgia de hérnia inguinal

A correção de hérnia inguinal pode deixar dor crônica na virilha ou na bolsa escrotal em até 10% dos pacientes após seis meses, de acordo com os dados reunidos pela EAU. Por isso, quem passou por essa cirurgia e desenvolveu dor no testículo deve mencionar o histórico na consulta.

Como é a avaliação no consultório

Não existe um exame único que confirme a dor escrotal crônica. A consulta busca, primeiro, identificar ou descartar causas tratáveis. Em geral, ela inclui:

  • história detalhada: quando a dor começou, como evolui, o que piora e o que alivia, cirurgias e traumas prévios, sintomas urinários, intestinais e sexuais;
  • exame físico cuidadoso: a EAU orienta a palpação delicada de cada estrutura da bolsa escrotal em busca de nódulos e pontos dolorosos, além do exame da virilha, do pênis e, quando indicado, da próstata e da musculatura pélvica;
  • exames complementares quando há indicação, como exame de urina ou ultrassom da bolsa escrotal para avaliar uma alteração encontrada no exame.

A própria EAU observa que, quando o exame físico é normal, o ultrassom não costuma ajudar no diagnóstico nem no tratamento da síndrome primária. Ele continua útil para investigar nódulos, aumento de volume ou outras alterações palpáveis.

Um diário de dor ajuda

Anotar por algumas semanas a intensidade da dor (de 0 a 10), os horários, as atividades que a desencadeiam e o que trouxe alívio torna a consulta mais produtiva e ajuda a acompanhar a resposta ao tratamento.

Como costuma ser o tratamento

Quando há uma causa definida, o tratamento é direcionado a ela. Na síndrome primária, a EAU recomenda seguir os princípios do cuidado da dor crônica, com uma abordagem biopsicossocial: entender a dor em conjunto com o paciente, combinar intervenções e reavaliar ao longo do tempo. Entre as opções descritas na diretriz estão:

  • orientação e autocuidado, com informação clara sobre a condição e ajustes nas atividades do dia a dia;
  • medicamentos escolhidos de forma individual, incluindo os que atuam na dor de origem nervosa;
  • fisioterapia pélvica, quando há participação da musculatura do assoalho pélvico;
  • acompanhamento psicológico, que faz parte do tratamento da dor crônica e não substitui as outras etapas;
  • bloqueio do cordão espermático, que ajuda a entender de onde vem a dor;
  • procedimentos cirúrgicos, como a desnervação microcirúrgica do cordão espermático, que a EAU sugere considerar quando a dor melhora com o bloqueio; e a reversão da vasectomia em casos selecionados de dor após o procedimento.

A diretriz é cautelosa com cirurgias mais amplas: a retirada do epidídimo, por exemplo, tem evidência fraca. A escolha depende da avaliação de cada caso, e a resposta ao tratamento varia de pessoa para pessoa.

Dor súbita é outra história

Tudo o que foi descrito aqui vale para a dor que se arrasta por semanas ou meses. Dor forte e repentina no testículo, principalmente em meninos e adolescentes, pode ser torção testicular, uma emergência. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) lembra que a dor da torção pode até cessar ou ser intermitente quando a torção se desfaz sozinha. Por isso, crises de dor intensa que vão e voltam também precisam de avaliação, e uma dor súbita e intensa deve levar direto ao pronto-atendimento.

Quando procurar o urologista

Dor no testículo que dura mais que alguns dias, que volta com frequência ou que interfere no trabalho, no exercício ou na vida sexual merece consulta. Conversar sobre o assunto sem pressa, com exame físico completo, é o primeiro passo para encontrar a causa ou para montar um plano de cuidado da dor. No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, o atendimento é particular e inclui crianças, adolescentes e adultos.

Quando procurar o urologista

  • A dor na bolsa escrotal dura semanas, vai e volta ou atrapalha o trabalho, o exercício ou a vida sexual.
  • Você notou um caroço, endurecimento, aumento de volume ou mudança de formato no testículo.
  • A dor começou depois de uma vasectomia, de uma cirurgia de hérnia ou de outro procedimento na região.
  • Há crises de dor forte que melhoram sozinhas e voltam: isso também merece avaliação, mesmo que no momento você esteja sem dor.
Agendar consulta pelo WhatsApp Urologia · Centro, Manhuaçu-MG · atendimento particular

Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Chronic Pelvic Pain – Epidemiology, Aetiology and Pathophysiology (primary scrotal pain syndrome)
  2. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Chronic Pelvic Pain – Diagnostic Evaluation
  3. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Chronic Pelvic Pain – Management
  4. American Urological Association (AUA). Vasectomy Guideline
  5. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Torção de testículo: o que é preciso saber! – Portal da Urologia

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

Agendar