Procedimentos

Cistoscopia: como é o exame que olha por dentro da bexiga

Cistoscopia é o exame que avalia uretra e bexiga com uma câmera fina. Veja quando é indicada, como é feita, o preparo e os cuidados depois.

Cistoscópio flexível, aparelho fino e preto usado para examinar a uretra e a bexiga, sobre campo estéril azul (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa: Michael Reeve / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em resumo

  • A cistoscopia permite ver por dentro a uretra e a bexiga com um aparelho fino, com luz e câmera, introduzido pelo próprio canal da urina, sem cortes.
  • É indicada para investigar sangue na urina, alterações em exames de imagem ou de urina, estreitamentos da uretra e para acompanhar tumores de bexiga, entre outras situações.
  • Costuma ser feita sem internação, com gel anestésico local ou sedação; se for preciso, pequenos fragmentos (biópsia) podem ser colhidos no mesmo momento.
  • Ardência e urina levemente rosada nos primeiros dias são comuns; febre, sangramento intenso ou dificuldade para urinar pedem contato com o médico.

Quando o urologista fala em cistoscopia, é comum a pessoa imaginar algo demorado ou dolorido. Na prática, é um exame rápido, feito pelo canal da urina, sem cortes, que permite ao médico ver diretamente o que exames de imagem e de urina só sugerem.

O que é a cistoscopia

A cistoscopia é a avaliação do interior da uretra (o canal por onde sai a urina) e da bexiga com um aparelho fino chamado cistoscópio. Ele tem uma fonte de luz e uma pequena câmera na ponta, e a imagem aparece em um monitor. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) descreve o exame justamente assim: uma investigação interna da bexiga por um instrumento dotado de câmera, durante a qual podem ser retiradas amostras para biópsia.

Existem dois tipos de aparelho:

  • flexível: dobra-se e acompanha as curvas naturais da uretra; costuma ser usado para diagnóstico e acompanhamento;
  • rígido: reto, com canais mais largos para instrumentos; em geral fica reservado para procedimentos maiores, com sedação ou anestesia.

A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) recomenda dar preferência ao aparelho flexível, quando disponível, tanto em homens quanto em mulheres, porque ele é mais bem tolerado, sobretudo pelos homens, cuja uretra é mais longa.

Quando o exame é indicado

A cistoscopia não é um exame de rotina para todo mundo. Ela entra quando há uma pergunta específica a responder, por exemplo:

  • sangue na urina, visível ou só no exame de laboratório, sem causa esclarecida;
  • alteração em exame de imagem (como uma imagem suspeita na bexiga ao ultrassom) ou na citologia urinária;
  • suspeita de estreitamento da uretra ou de cálculo dentro da bexiga;
  • infecções urinárias de repetição com características atípicas, como suspeita de obstrução, cálculo ou lesão na bexiga;
  • acompanhamento de quem já tratou um tumor de bexiga, em intervalos definidos conforme o risco de cada caso;
  • realização de pequenos procedimentos, como retirar um cateter duplo J ou aplicar medicação na parede da bexiga.

No câncer de bexiga, o papel do exame é central. A Seccional São Paulo da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) chama a cistoscopia de “exame central no diagnóstico da doença”, e a EAU afirma que ela não pode ser substituída pela citologia nem por outro teste não invasivo quando há sintomas que levantam essa suspeita. Isso não quer dizer que quem faz cistoscopia tenha câncer: muitas vezes o exame serve exatamente para afastar essa possibilidade e mostrar outra causa para os sintomas.

Quando ela costuma não ser necessária

A diretriz de infecções urológicas da EAU, por exemplo, orienta não fazer uma investigação extensa de rotina (com cistoscopia e ultrassom completo) em mulheres com menos de 40 anos que têm cistite de repetição sem outros fatores de risco, porque o rendimento desses exames é baixo. Da mesma forma, encontrar bactérias na urina de alguém sem sintomas, com história clínica sem alterações, não obriga a fazer cistoscopia. A decisão é individual.

Antes do exame: o preparo

O preparo é simples, mas alguns cuidados fazem diferença:

  1. Exame de urina, quando solicitado, para verificar se há infecção. Se houver ardência, febre ou suspeita de infecção urinária, avise: o exame pode precisar ser remarcado.
  2. Remédios que afetam a coagulação (anticoagulantes e antiagregantes): informe o médico, mas não suspenda por conta própria. A conduta é definida caso a caso.
  3. Alergias a medicamentos, anestésicos ou látex devem ser comunicadas.
  4. Jejum: depende do tipo de anestesia. O médico orienta antes.
  5. Acompanhante: é recomendável ir acompanhado, e é obrigatório se houver sedação, já que nesse caso não se deve dirigir no mesmo dia.

Um ponto que costuma surpreender: a EAU recomenda não usar antibiótico preventivo de rotina antes da cistoscopia simples, porque o risco de infecção depois do exame é baixo e o uso desnecessário favorece bactérias resistentes. Quando o procedimento envolve biópsia ou outra intervenção que lesa a mucosa, a mesma diretriz orienta pesquisar e tratar bactérias na urina antes. Por isso o exame de urina prévio é tão importante.

Como é feito, passo a passo

No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a cistoscopia é realizada em ambiente hospitalar, sem internação: a pessoa volta para casa no mesmo dia. Em geral, o exame segue estas etapas:

  1. Acomodação: o paciente fica deitado, a região genital é higienizada e a equipe explica cada etapa.
  2. Conforto: aplica-se gel anestésico local na uretra ou, conforme o caso, faz-se sedação. A EAU observa que o aparelho flexível com gel anestésico intrauretral melhora a tolerância ao exame.
  3. Avaliação: o cistoscópio é introduzido pela uretra até a bexiga. Um líquido estéril enche a bexiga para abrir suas paredes e melhorar a visão, o que costuma dar vontade de urinar e sensação de pressão. Se algo incomodar muito, basta avisar.
  4. Se for preciso: pequenos fragmentos podem ser colhidos para biópsia no mesmo momento, ou um procedimento simples pode ser feito.
  5. Liberação: depois de um breve repouso, o paciente é liberado.

Um detalhe curioso das diretrizes: estudos citados pela EAU mostraram que ouvir música durante a cistoscopia reduz a dor e a ansiedade relatadas. Vale perguntar à equipe se é possível.

Depois do exame

Nos primeiros dias, é comum sentir ardência ao urinar, notar a urina levemente rosada e ter vontade de urinar com mais frequência. Beber água ao longo do dia ajuda, salvo orientação diferente do médico.

Procure atendimento se houver:

  • febre ou calafrios;
  • dor intensa;
  • sangramento intenso ou com coágulos;
  • dificuldade ou impossibilidade de urinar.

O que foi visto no exame geralmente pode ser explicado logo em seguida. Se houve biópsia, o resultado leva alguns dias e é discutido no retorno, junto com os próximos passos.

Riscos: o que é importante saber

A cistoscopia é um procedimento considerado seguro, mas, como qualquer manipulação do trato urinário, pode ter complicações, como infecção urinária e sangramento. A diretriz de estenose de uretra da EAU lista a instrumentação da uretra (sonda vesical, cistoscopia e cirurgias pelo canal) entre as causas possíveis de cicatriz e estreitamento do canal. Por isso, se o jato ficar progressivamente mais fraco nas semanas ou meses seguintes, vale comentar com o urologista.

Mulheres, homens e crianças

O exame pode ser indicado em qualquer idade. Nos homens, o aparelho passa pela próstata, o que também permite avaliá-la. Em crianças, a indicação e a anestesia são definidas junto com a família.

Em resumo

A cistoscopia é a forma mais direta de enxergar a uretra e a bexiga por dentro. Bem indicada e com preparo adequado, ela ajuda a esclarecer sintomas como sangue na urina, confirmar ou afastar suspeitas e acompanhar quem já tratou alguma doença da bexiga. Dúvidas sobre o seu caso, como tipo de anestesia, uso de remédios e preparo, devem ser conversadas na consulta antes do exame.

Quando procurar o urologista

  • Você notou sangue na urina, mesmo que tenha sido uma vez só e tenha sumido sozinho.
  • Um exame de urina mostrou sangue (hematúria microscópica) ou a citologia urinária veio alterada.
  • O jato de urina ficou fraco ou fino sem explicação, principalmente depois de sonda, cirurgia ou trauma na região.
  • Você já tratou um tumor de bexiga e precisa manter o acompanhamento combinado com o urologista.
Agendar consulta pelo WhatsApp Urologia · Centro, Manhuaçu-MG · atendimento particular

Referências

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de bexiga – versão para população
  2. Sociedade Brasileira de Urologia – Seccional São Paulo. Julho Roxo: diagnóstico precoce do câncer de bexiga
  3. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer – Diagnosis
  4. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections
  5. European Association of Urology (EAU). Urethral Strictures Guidelines – Definition, Epidemiology, Aetiology and Prevention

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

Agendar