Bacteriúria assintomática: urocultura positiva sem sintomas
A urocultura deu positiva, mas você não sente nada? Entenda o que é bacteriúria assintomática, quando ela pede tratamento e quando o antibiótico atrapalha.
Em resumo
- Bacteriúria assintomática é a presença de bactérias na urocultura em quem não tem nenhum sintoma urinário; não é o mesmo que infecção.
- Na maioria das pessoas ela não causa dano ao rim e não deve ser tratada: o antibiótico sem necessidade favorece resistência e pode aumentar novas infecções.
- As exceções principais são a gestação e os procedimentos urológicos que atravessam a mucosa do trato urinário.
- O resultado do exame sempre deve ser interpretado junto com a história e o exame clínico.
É uma situação comum no consultório: a pessoa faz um check-up, um exame pré-operatório ou um exame de rotina, e o laudo da urocultura volta com bactérias. Ela não sente ardor, não vai ao banheiro com mais frequência, não tem febre. Mesmo assim, a primeira reação costuma ser procurar um antibiótico. Na maior parte dos casos, essa não é a conduta recomendada. Esse achado tem nome, bacteriúria assintomática, e as diretrizes de urologia tratam dele de forma bem diferente da infecção urinária.
O que significa bacteriúria assintomática
“Bacteriúria” quer dizer bactérias na urina. “Assintomática” quer dizer que não há sintomas urinários. Juntas, as palavras descrevem uma pessoa que tem crescimento de bactérias na urocultura, mas não tem infecção do ponto de vista clínico.
A Associação Europeia de Urologia (EAU) descreve a bacteriúria assintomática como uma colonização: as bactérias convivem com o trato urinário sem provocar doença. A diretriz lembra ainda que estudos clínicos mostraram que essa colonização pode até proteger contra outras infecções, porque ocupa o espaço que bactérias mais agressivas poderiam ocupar.
Para chegar a esse diagnóstico, a EAU usa um critério laboratorial: crescimento de pelo menos 100 mil unidades formadoras de colônia por mililitro (10⁵ UFC/mL) em urina de jato médio, confirmado em duas amostras seguidas nas mulheres e em uma amostra nos homens, sempre em alguém sem sintomas urinários.
É mais comum do que parece
Segundo a mesma diretriz, a bacteriúria assintomática aparece em cerca de 1% a 5% das mulheres saudáveis antes da menopausa. A frequência sobe em outros grupos:
- de 4% a 19% em idosos saudáveis, homens e mulheres;
- de 0,7% a 27% em pessoas com diabetes;
- de 2% a 10% em gestantes;
- de 15% a 50% em idosos que vivem em instituições de longa permanência;
- de 23% a 89% em pessoas com lesão da medula espinhal.
Em homens jovens ela é incomum. Quando aparece, a diretriz orienta considerar a possibilidade de prostatite bacteriana crônica e avaliar a próstata com o exame de toque.
Infecção urinária e bacteriúria assintomática: a diferença está nos sintomas
O laudo da urocultura, sozinho, não diferencia as duas situações. O que separa uma da outra é o que a pessoa sente.
Na cistite, a infecção restrita à bexiga, aparecem ardor ou dor para urinar, urgência, vontade de urinar muitas vezes, às vezes perda de urina e pressão no pé da barriga. Nas infecções sistêmicas, como a pielonefrite, somam-se febre, calafrios, dor nas costas e mal-estar geral.
Quando nenhum desses sinais está presente, o resultado positivo descreve uma colonização, e não uma doença a ser tratada. A EAU é direta nesse ponto: a bacteriúria assintomática não deve ser tratada e, por isso, também não deve ser rastreada, a não ser nas situações bem definidas em que ela representa um risco.
Por que não tratar, na maioria das vezes
Pode parecer contraditório deixar bactérias na urina sem antibiótico, mas há motivos sólidos:
- Não há dano ao rim. A diretriz afirma que a bacteriúria assintomática não causa doença nem lesão renal.
- O tratamento não traz benefício em diversos grupos estudados: mulheres sem fatores de risco, mulheres após a menopausa, pessoas com diabetes bem controlado, idosos institucionalizados, transplantados renais e pessoas com bexiga neurogênica ou reconstruída.
- Em quem tem cistite de repetição, tratar pode piorar. Um estudo randomizado citado pela EAU mostrou que mulheres com infecções recorrentes que receberam antibiótico para a bacteriúria assintomática tiveram mais episódios de infecção com sintomas depois.
- Resistência bacteriana. Cada antibiótico desnecessário seleciona bactérias resistentes, o que dificulta o tratamento quando uma infecção de verdade aparecer.
Quem usa sonda vesical de demora, cistostomia, nefrostomia ou cateter duplo J praticamente sempre terá bactérias na urina. A diretriz também não recomenda tratar esse achado de rotina quando não há sintomas.
Quando a bacteriúria assintomática deve ser tratada
Há exceções importantes, em que procurar e tratar faz diferença.
Na gestação
A diretriz europeia recomenda rastrear e tratar a bacteriúria assintomática em gestantes, com base em estudos que mostraram redução de pielonefrite, de parto prematuro e de bebês com baixo peso ao nascer. A própria EAU ressalta que boa parte desses estudos é antiga e de qualidade limitada, e orienta seguir também as recomendações nacionais. Por isso a urocultura faz parte do pré-natal, e o tratamento, quando indicado, é escolhido pelo médico que acompanha a gestação, considerando a segurança do medicamento para o bebê.
Antes de procedimentos urológicos
Em cirurgias e exames que entram no trato urinário e atravessam a mucosa, como a ressecção endoscópica da próstata ou de tumores da bexiga e outras cirurgias endourológicas, a presença de bactérias aumenta o risco de infecção e febre depois do procedimento. Nesses casos, a EAU recomenda colher urocultura antes e tratar a bacteriúria encontrada. O mesmo vale para a colocação ou troca de cateter duplo J e de nefrostomia.
Já para cirurgias que não envolvem o trato urinário, como prótese de quadril ou joelho e cirurgias cardíacas, a diretriz não recomenda rastrear nem tratar.
Situações individuais
Pessoas com imunidade muito comprometida ou doenças graves precisam de avaliação caso a caso. E quando a cultura mostra crescimento persistente de bactérias que produzem urease, como o Proteus mirabilis, a EAU orienta investigar a presença de cálculo urinário, porque essas bactérias favorecem a formação de pedras.
E nas crianças?
A bacteriúria assintomática também ocorre em meninos e meninas. A diretriz de urologia pediátrica da EAU orienta diferenciar a infecção urinária sem febre da bacteriúria assintomática, que é a cultura positiva em uma criança sem sintomas. Lembrando que bebês podem ter sinais pouco específicos de infecção, como irritabilidade, vômitos, recusa alimentar ou febre sem causa aparente. Diante de um exame alterado em criança, a avaliação com o pediatra e, quando necessário, com o urologista ajuda a decidir o que é colonização e o que é infecção.
O que fazer com o resultado em mãos
Se a urocultura veio positiva e você não tem sintomas:
- Não comece antibiótico por conta própria, nem use sobras de tratamentos anteriores.
- Observe se há sintomas. Ardor, urgência, febre, dor nas costas ou mudança no aspecto da urina mudam o cenário.
- Leve o exame para avaliação, com informações sobre gestação, diabetes, uso de sonda ou cateter e procedimentos marcados.
- Evite repetir exames sem indicação. A diretriz não recomenda urocultura de controle em quem está sem sintomas após um tratamento.
No consultório do Dr. Ruston Louback, em Manhuaçu-MG, a interpretação da urocultura é feita junto com a história clínica e o exame físico, para separar o achado laboratorial de uma infecção que realmente precisa de tratamento.
Quando procurar o urologista
- Urocultura positiva sem sintomas e dúvida se é preciso tratar: leve o exame para avaliação antes de iniciar qualquer antibiótico por conta própria.
- Gestante com urocultura positiva no pré-natal: converse com o obstetra ou urologista que acompanha a gestação.
- Cirurgia ou exame urológico agendado (como ressecção de próstata, cirurgia de cálculo ou troca de cateter duplo J): faça a urocultura pedida no preparo.
- Aparecimento de ardor, urgência, febre, calafrios ou dor nas costas: aí já não é bacteriúria assintomática e a avaliação deve ser rápida.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections – 3.3 Asymptomatic bacteriuria in adults e 3.4 Cystitis in women
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections
- European Association of Urology (EAU). Paediatric Urology – Urinary tract infections in children
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.