Procedimentos

Criptorquidia: o que é o testículo não descido e quando operar

Criptorquidia é o testículo que não desceu para a bolsa escrotal. Entenda diagnóstico, orquidopexia e por que a avaliação precoce importa.

Dr. Ruston Louback no consultório da Masterclin Urologia em Manhuaçu-MG (imagem ilustrativa do ambiente clínico)
Consultório Masterclin Urologia

Em resumo

  • Criptorquidia (testículo não descido) é uma das alterações genitais mais comuns em meninos ao nascimento, sobretudo em prematuros.
  • O diagnóstico é clínico: exame físico cuidadoso; ultrassom de rotina antes do encaminhamento raramente muda a conduta.
  • Se não houver descida espontânea até cerca de seis meses (idade corrigida), a orquidopexia é a opção de escolha, preferencialmente até 12–18 meses.
  • Correção oportuna visa preservar o potencial de fertilidade, facilitar o acompanhamento e reduzir riscos associados ao testículo fora do escroto.

Quando o pediatra ou a família notam que um dos testículos — ou os dois — não está na bolsa escrotal, surge uma pergunta imediata: “vai descer sozinho?” Em muitos bebês, parte da descida ainda acontece nos primeiros meses. Em outros, é preciso planejar a orquidopexia, a cirurgia que coloca o testículo no escroto. Entender o que é a criptorquidia, o que esperar da avaliação e por que o tempo importa ajuda a família a agir com calma e informação.

O que é criptorquidia

Criptorquidia (ou testículo não descido) é a ausência de um ou dos dois testículos dentro da bolsa escrotal. Durante a gestação, os testículos se formam no abdômen e percorrem um caminho até o escroto. Quando esse trajeto não se completa, o testículo pode ficar na virilha, no canal inguinal, em posição ectópica (fora do caminho habitual) ou, em parte dos casos, dentro do abdômen.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a condição pode ocorrer em até cerca de 4% dos meninos nascidos a termo e em até cerca de 45% dos prematuros. As diretrizes europeias de urologia pediátrica (EAU) trazem faixas semelhantes: cerca de 1,0% a 4,6% nos nascidos a termo e 1,1% a 45% nos prematuros. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também destaca a maior frequência em prematuros (cerca de 30%) e cita incidência em torno de 3,4% em nascidos a termo.

Na maioria das vezes o problema é unilateral. A SBP estima unilateralidade em 75% a 90% dos casos; a EAU lembra que a forma bilateral pode chegar a cerca de 30% das ocorrências.

Congênita, adquirida e testículo retrátil

Nem todo testículo “fora do lugar” é a mesma coisa:

  • Congênita: ao nascimento, um ou os dois testículos já não estão no escroto.
  • Adquirida (ascendente): o testículo estava no escroto e, com o crescimento, deixa de permanecer na posição correta. A EAU estima prevalência de testículo ascendente em torno de 1% a 2% em estudos populacionais.
  • Retrátil: o testículo chega ao escroto, mas sobe com facilidade por reflexo cremastérico. Em geral pode ser trazido de volta e permanecer ali, ao menos temporariamente. A EAU recomenda acompanhamento regular até a puberdade, porque há risco de ascenção secundária (citado em até cerca de 33% em algumas séries).

Distinguir essas situações é papel do exame clínico — e evita tanto alarme desnecessário quanto atraso no encaminhamento.

Por que a posição do testículo importa

O escroto mantém uma temperatura um pouco mais baixa que a do corpo, ambiente mais favorável à maturação das células germinativas. Testículo fora do escroto por tempo prolongado se associa a risco maior de prejuízo ao potencial de fertilidade e de tumor testicular na vida adulta, além de maior exposição a torção, trauma e hérnia inguinal associada.

Sobre fertilidade, a SBU e a EAU convergem em um ponto importante: na criptorquidia unilateral, a taxa de fertilidade pode ser menor, mas a taxa de paternidade costuma se aproximar da de homens com ambos os testículos no escroto. Já na forma bilateral, fertilidade e paternidade tendem a ficar mais comprometidas. Em casos bilaterais não tratados, a SBU menciona alteração dos parâmetros seminais que pode chegar a 100%.

Sobre câncer, a SBU aponta risco cerca de 2 a 5 vezes maior do que na população geral; a SBP cita associação com parte dos tumores testiculares e risco relativo mais elevado em outras estimativas. Em qualquer cenário, a mensagem prática é a mesma das sociedades: correção oportuna e, depois da puberdade, atenção ao autoexame testicular.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico. História gestacional (prematuridade, baixo peso) e exame físico minucioso — com a criança deitada e, quando possível, em pé — avaliam posição, mobilidade e volume testicular, além de achados associados (hérnia, hidrocele, aspecto do pênis e do meato).

A SBU estima que os testículos criptorquídicos sejam palpáveis em até cerca de 80% dos casos. Quando não são palpáveis, em 50% a 60% das vezes encontram-se na cavidade abdominal, o que exige planejamento cirúrgico diferente.

A American Urological Association (AUA) recomenda não solicitar ultrassom ou outros exames de imagem de rotina antes do encaminhamento, porque esses estudos raramente alteram a decisão. A EAU reforça que a imagem tem papel limitado e só se justifica em cenários selecionados (por exemplo, investigação de diferenças do desenvolvimento sexual). Em recém-nascidos com dois testículos não palpáveis, a avaliação especializada deve ser imediata para afastar condições que exigem manejo urgente, como algumas formas de diferença do desenvolvimento sexual — orientação compartilhada por AUA e EAU.

Quando intervir: a janela dos primeiros meses

Há chance real de descida espontânea nos primeiros meses de vida. A SBP descreve queda da incidência de cerca de 3,4% ao nascimento para cerca de 0,8% aos 12 meses. Por isso as sociedades pedem paciência inicial — e ação depois.

  • A AUA orienta encaminhar ao especialista se não houver descida espontânea até seis meses (idade corrigida para prematuros) e realizar a cirurgia no ano seguinte.
  • A SBU e a EAU recomendam correção preferencialmente entre 6 e 12 meses, não ultrapassando 18 meses.
  • Em crianças maiores, a SBP recomenda corrigir no momento do diagnóstico.

A cirurgia de escolha é a orquidopexia: mobilizar o testículo e fixá-lo no escroto sem tensão. Para testículos palpáveis, a via pode ser inguinal ou escrotal, conforme a posição. Para não palpáveis, a exploração (muitas vezes por videolaparoscopia) define se o testículo está presente, se é viável e qual a melhor técnica — incluindo, em casos selecionados, procedimentos em mais de um tempo.

A terapia hormonal para “forçar” a descida não é rotina. A SBU destaca a falta de evidência consistente de eficácia; a AUA recomenda não usar hormônio com esse objetivo; a EAU estima sucesso limitado em torno de 20% para descida isolada e não recomenda hormônio de rotina na criptorquidia unilateral só para descer o testículo.

O que a família pode fazer enquanto acompanha

  • Confirme no berçário e nas consultas de puericultura se ambos os testículos foram palpados no escroto.
  • Anote se houve prematuridade, baixo peso ou cirurgias na virilha — informações úteis na consulta.
  • Evite “empurrar” o testículo em casa ou adiar a avaliação esperando que “desça um dia”.
  • Após a correção, mantenha o acompanhamento orientado pelo urologista; na adolescência e na vida adulta, o autoexame testicular continua relevante.

Este texto é educativo e não substitui consulta. Cada criança tem história, exame e timing próprios; a decisão sobre operar, quando e por qual via é individualizada.

Em Manhuaçu e região

Na Masterclin Urologia, em Manhuaçu-MG, a avaliação urológica de crianças e adultos inclui o exame cuidadoso da genitália masculina e o planejamento, quando indicado, da orquidopexia e do seguimento. Se houver dúvida sobre a posição dos testículos do seu filho — ao nascimento, nos primeiros meses ou mais tarde —, procure avaliação. Corrigir no tempo certo é uma forma concreta de cuidar da saúde testicular ao longo da vida.

Quando procurar o urologista

  • Ao nascimento, um ou os dois testículos não estão na bolsa escrotal — ou isso aparece em consultas de rotina.
  • O testículo era palpável no escroto e, com o crescimento, deixou de ser encontrado na posição correta.
  • Há testículos não palpáveis dos dois lados, hipospádia associada ou dúvida sobre o desenvolvimento genital — avaliação especializada sem demora.
  • A criança já tem mais de seis meses (idade corrigida) e o testículo ainda não desceu.
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Referências

  1. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Criptorquidia: o que é, causas e tratamentos
  2. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Criptorquidismo – Departamento Científico de Endocrinologia
  3. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology – Management of Undescended Testes
  4. American Urological Association (AUA). Evaluation and Treatment of Cryptorchidism (validity confirmed 2025)

Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende na Masterclin Urologia, em Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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