Criptorquidia: o que é o testículo não descido e quando operar
Criptorquidia é o testículo que não desceu para a bolsa escrotal. Entenda diagnóstico, orquidopexia e por que a avaliação precoce importa.
Em resumo
- Criptorquidia (testículo não descido) é uma das alterações genitais mais comuns em meninos ao nascimento, sobretudo em prematuros.
- O diagnóstico é clínico: exame físico cuidadoso; ultrassom de rotina antes do encaminhamento raramente muda a conduta.
- Se não houver descida espontânea até cerca de seis meses (idade corrigida), a orquidopexia é a opção de escolha, preferencialmente até 12–18 meses.
- Correção oportuna visa preservar o potencial de fertilidade, facilitar o acompanhamento e reduzir riscos associados ao testículo fora do escroto.
Quando o pediatra ou a família notam que um dos testículos — ou os dois — não está na bolsa escrotal, surge uma pergunta imediata: “vai descer sozinho?” Em muitos bebês, parte da descida ainda acontece nos primeiros meses. Em outros, é preciso planejar a orquidopexia, a cirurgia que coloca o testículo no escroto. Entender o que é a criptorquidia, o que esperar da avaliação e por que o tempo importa ajuda a família a agir com calma e informação.
O que é criptorquidia
Criptorquidia (ou testículo não descido) é a ausência de um ou dos dois testículos dentro da bolsa escrotal. Durante a gestação, os testículos se formam no abdômen e percorrem um caminho até o escroto. Quando esse trajeto não se completa, o testículo pode ficar na virilha, no canal inguinal, em posição ectópica (fora do caminho habitual) ou, em parte dos casos, dentro do abdômen.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a condição pode ocorrer em até cerca de 4% dos meninos nascidos a termo e em até cerca de 45% dos prematuros. As diretrizes europeias de urologia pediátrica (EAU) trazem faixas semelhantes: cerca de 1,0% a 4,6% nos nascidos a termo e 1,1% a 45% nos prematuros. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também destaca a maior frequência em prematuros (cerca de 30%) e cita incidência em torno de 3,4% em nascidos a termo.
Na maioria das vezes o problema é unilateral. A SBP estima unilateralidade em 75% a 90% dos casos; a EAU lembra que a forma bilateral pode chegar a cerca de 30% das ocorrências.
Congênita, adquirida e testículo retrátil
Nem todo testículo “fora do lugar” é a mesma coisa:
- Congênita: ao nascimento, um ou os dois testículos já não estão no escroto.
- Adquirida (ascendente): o testículo estava no escroto e, com o crescimento, deixa de permanecer na posição correta. A EAU estima prevalência de testículo ascendente em torno de 1% a 2% em estudos populacionais.
- Retrátil: o testículo chega ao escroto, mas sobe com facilidade por reflexo cremastérico. Em geral pode ser trazido de volta e permanecer ali, ao menos temporariamente. A EAU recomenda acompanhamento regular até a puberdade, porque há risco de ascenção secundária (citado em até cerca de 33% em algumas séries).
Distinguir essas situações é papel do exame clínico — e evita tanto alarme desnecessário quanto atraso no encaminhamento.
Por que a posição do testículo importa
O escroto mantém uma temperatura um pouco mais baixa que a do corpo, ambiente mais favorável à maturação das células germinativas. Testículo fora do escroto por tempo prolongado se associa a risco maior de prejuízo ao potencial de fertilidade e de tumor testicular na vida adulta, além de maior exposição a torção, trauma e hérnia inguinal associada.
Sobre fertilidade, a SBU e a EAU convergem em um ponto importante: na criptorquidia unilateral, a taxa de fertilidade pode ser menor, mas a taxa de paternidade costuma se aproximar da de homens com ambos os testículos no escroto. Já na forma bilateral, fertilidade e paternidade tendem a ficar mais comprometidas. Em casos bilaterais não tratados, a SBU menciona alteração dos parâmetros seminais que pode chegar a 100%.
Sobre câncer, a SBU aponta risco cerca de 2 a 5 vezes maior do que na população geral; a SBP cita associação com parte dos tumores testiculares e risco relativo mais elevado em outras estimativas. Em qualquer cenário, a mensagem prática é a mesma das sociedades: correção oportuna e, depois da puberdade, atenção ao autoexame testicular.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico. História gestacional (prematuridade, baixo peso) e exame físico minucioso — com a criança deitada e, quando possível, em pé — avaliam posição, mobilidade e volume testicular, além de achados associados (hérnia, hidrocele, aspecto do pênis e do meato).
A SBU estima que os testículos criptorquídicos sejam palpáveis em até cerca de 80% dos casos. Quando não são palpáveis, em 50% a 60% das vezes encontram-se na cavidade abdominal, o que exige planejamento cirúrgico diferente.
A American Urological Association (AUA) recomenda não solicitar ultrassom ou outros exames de imagem de rotina antes do encaminhamento, porque esses estudos raramente alteram a decisão. A EAU reforça que a imagem tem papel limitado e só se justifica em cenários selecionados (por exemplo, investigação de diferenças do desenvolvimento sexual). Em recém-nascidos com dois testículos não palpáveis, a avaliação especializada deve ser imediata para afastar condições que exigem manejo urgente, como algumas formas de diferença do desenvolvimento sexual — orientação compartilhada por AUA e EAU.
Quando intervir: a janela dos primeiros meses
Há chance real de descida espontânea nos primeiros meses de vida. A SBP descreve queda da incidência de cerca de 3,4% ao nascimento para cerca de 0,8% aos 12 meses. Por isso as sociedades pedem paciência inicial — e ação depois.
- A AUA orienta encaminhar ao especialista se não houver descida espontânea até seis meses (idade corrigida para prematuros) e realizar a cirurgia no ano seguinte.
- A SBU e a EAU recomendam correção preferencialmente entre 6 e 12 meses, não ultrapassando 18 meses.
- Em crianças maiores, a SBP recomenda corrigir no momento do diagnóstico.
A cirurgia de escolha é a orquidopexia: mobilizar o testículo e fixá-lo no escroto sem tensão. Para testículos palpáveis, a via pode ser inguinal ou escrotal, conforme a posição. Para não palpáveis, a exploração (muitas vezes por videolaparoscopia) define se o testículo está presente, se é viável e qual a melhor técnica — incluindo, em casos selecionados, procedimentos em mais de um tempo.
A terapia hormonal para “forçar” a descida não é rotina. A SBU destaca a falta de evidência consistente de eficácia; a AUA recomenda não usar hormônio com esse objetivo; a EAU estima sucesso limitado em torno de 20% para descida isolada e não recomenda hormônio de rotina na criptorquidia unilateral só para descer o testículo.
O que a família pode fazer enquanto acompanha
- Confirme no berçário e nas consultas de puericultura se ambos os testículos foram palpados no escroto.
- Anote se houve prematuridade, baixo peso ou cirurgias na virilha — informações úteis na consulta.
- Evite “empurrar” o testículo em casa ou adiar a avaliação esperando que “desça um dia”.
- Após a correção, mantenha o acompanhamento orientado pelo urologista; na adolescência e na vida adulta, o autoexame testicular continua relevante.
Este texto é educativo e não substitui consulta. Cada criança tem história, exame e timing próprios; a decisão sobre operar, quando e por qual via é individualizada.
Em Manhuaçu e região
Na Masterclin Urologia, em Manhuaçu-MG, a avaliação urológica de crianças e adultos inclui o exame cuidadoso da genitália masculina e o planejamento, quando indicado, da orquidopexia e do seguimento. Se houver dúvida sobre a posição dos testículos do seu filho — ao nascimento, nos primeiros meses ou mais tarde —, procure avaliação. Corrigir no tempo certo é uma forma concreta de cuidar da saúde testicular ao longo da vida.
Quando procurar o urologista
- Ao nascimento, um ou os dois testículos não estão na bolsa escrotal — ou isso aparece em consultas de rotina.
- O testículo era palpável no escroto e, com o crescimento, deixou de ser encontrado na posição correta.
- Há testículos não palpáveis dos dois lados, hipospádia associada ou dúvida sobre o desenvolvimento genital — avaliação especializada sem demora.
- A criança já tem mais de seis meses (idade corrigida) e o testículo ainda não desceu.
Referências
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Criptorquidia: o que é, causas e tratamentos
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Criptorquidismo – Departamento Científico de Endocrinologia
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Paediatric Urology – Management of Undescended Testes
- American Urological Association (AUA). Evaluation and Treatment of Cryptorchidism (validity confirmed 2025)
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.